ELKE 5

 Capítulo 5: A Separação


Em um determinado dia, ou noite, ou ciclo... num momento em que fazia-se silêncio na Sala do Trono... Os anjos estavam ocupados com a Guerra e Deus estava assentado em Seu trono, em silêncio, observando. 


Estavam os dois irmãos Elke em seu palacete, com as cortinas fechadas, quando iniciou-se um diálogo.


— Elke Obedece.


— Fala, meu irmão amado.


— Estou com problema.


— Diga-me, meu irmãozinho querido. O que eu posso fazer para te alegrar?


— Todos ouvimos a proposta de Lúcifer... — disse Elke Abençoa.

Ao que, pela forma, tom e timbre com o que foi dito... tendo Elke Obedece vasta experiência em ouvir e falar, preocupou-se imediatamente, esticando ao máximo o pescoço para trás para ver o irmão de frente, olhando-o com espanto.


Os dois irmãos sempre foram um só. Nos seus momentos a sós, recostavam-se um no outro, eram melhores amigos e superconfidentes, sempre dialogavam após os ciclos de apresentações e banquetes.


Mas desde que a guerra entre o inferno chamado Hades e o Reino de Deus chamado Paraíso começou, não tiveram mais tempo hábil para trocar ideia.


— Andei pensando sobre a proposta de Lúcifer. 


— Não, Abençoa, por favor!


— Deixe-me falar. A proposta dele é conciliar o bem e o mal: teremos o mesmo poder de Deus. Na verdade, seremos todos MAIS PODEROSOS do que Ele, porque Deus Aba-Pai abriu mão das trevas e a encerrou no Hades para ser tão-somente amor.


 — Se com apenas 33% dos anjos, Lúcifer está conseguindo abalar bastante as nossas estruturas, imagina quando mais anjos aderirem à proposta? Os céus estão em guerra! E quando isso vai acabar? Nem tempo temos para adorar. Estamos sendo felizes ao turno de 3x1! 

— Um ciclo guerrilhamos - continuou Elke Abençoa - um ciclo adoramos, um ciclo descansamos, e no outro ciclo já estamos guerreando de novo!!! O que eu vou dizer? Que o céu vai virar o inferno? Que os demônios vão ganhar?


— Aí ai ai... por amor das nossas vidas, né Abençoa...


— Deus até nos permite guerrear, mas jamais destruir os anjos caídos.


— Nós somos despenseiros da mais alta confiança do Pai — disse Elke Obedece. — Olha quantos mistérios nos são confiados! Somos únicos e exclusivos. Enquanto há hostes de anjos — Serafins, Dominações e Tronos — nós somos Querubins, somos ungidos pelo Pai, Abençoa. Pelo amor... veja como somos perfeitos. Você vai negligenciar a vida?


— Eles se tornaram poderosos, conhecedores do que não conhecemos.


— Nós temos luz e amor.


— Eles têm trevas e ódio.


— Pelo amor de Deus, Abençoa! Agora virou moda no Brasil as pessoas dizerem “tô só o ódio”. Você vai se deixar contaminar também?


Foi quando a cortina do palácio de Elke se abriu, e o próprio Senhor se apresentou a eles, estendendo Suas mãos e convidando-os para subir, o que prontamente fizeram.


— Meus filhos, excelência da criação. Vocês sabem como Eu amo vocês dois. E vos direi algo, peço que guardem sempre convosco: Desviai de mim as vistas, e chorarei amargamente.


Ao receber a presença do Pai e ouvir as Suas palavras, Elke Abençoa estremeceu imediatamente em seu coração. Abençoa sabia. Sabia e muito bem sabia o que estava escolhendo, era consciente. 

Havia harmonia e equilíbrio entre os dois irmãos gêmeos, pois, enquanto um era o centro das atenções nos banquetes, somente o outro é que tinha a capacidade de trazer dos tesouros escondidos e à mesa dos banquetes para abençoar. Não havia um melhor que ooutro. 

Entretanto, assim como irmãos gêmeos idênticos na Terra se diferem, passou a haver ali, uma divergência de opinião.


— Elke Abençoa, Eu já tinha me apercebido do seu coração... De que a Teoria do Fruto da Ciência do Bem e do Mal foi bem recebida por você. Desde quando a recebestes, a desejastes.


— Pai...


— Sabes que não precisa se justificar, não precisa me explicar nada. Pois quando Eu decidi revelar a criação, Eu já sabia que muitos me abandonariam.


Aos prantos, Elke Abençoa lamentou seus sentimentos de tristeza em abandonar os ternos braços do Pai, onde recebia pessoalmente do próprio Deus carinhos em sua crista, e beijinhos, e abraços em seu colo.


— Eu não vou aceitar isso, Elke Abençoa! Como assim? Você vai comer do fruto?


— Eu já comi.


— Não!


— Elke Abençoa, nós somos um só corpo, um só espírito, uma só unidade. Se você se for, nós vamos morrer!


— Não é a Mim que ele rejeitou, mas o que lhe sucede é a "curiosidade para o mal".


— Curioso para o mal? Agora você é um curioso, Elke Abençoa? E o que vai ser de mim? Você quer me encher de ódio? Porque tem uma tal de raiva que está tomando conta do meu coração com essa história toda. Agora nós vamos viver brigando, fazendo kizomba na presença de Deus? Eu não vou aceitar isso. Eu não aceito as trevas! Eu sou Elke Obedece. Deus é fiel. E se for para morrer, serei fiel até a morte. Ou então me dê, Deus, outro corpo, porque eu não vou descer à sepultura.


— Elke Abençoa - disse Deus - tua responsabilidade é em dobro, pois está nas tuas mãos também decidir em favor do teu irmão. Você não é o último a cair. Outros ainda cairão. A batalha contra o Meu Reino vai se acirrar. Somente os fiéis se salvarão. Escolhe, pois, a vida. Eis que ponho diante de ti o caminho da bênção e o da maldição. Escolhe, pois, a vida. Lembrando que estreito é o caminho que leva à vida eterna, e larga a porta da perdição. Muitos se deixaram seduzir pelos prazeres, pela força insuperável, rejeitando os princípios da humildade e escolhendo a soberba. Deixando de ser trigo para ser joio. Deixando de ser ovelha para ser bode.


— Se você comer da fruta, serão expulsos como os demais. Vocês serão automaticamente conduzidos ao trono de Satanás e vão servi-lo continuamente. Mas lá vocês não terão essa felicidade, por maiores promessas que Satanás vos tenha feito ou venha a fazer.


Então chamou Deus a Satanás em Sua presença. O anjo mais lindo de todos: de cabelos que mudam de cor, lábios delineados, sobrancelhas feitas, do tipo vaidoso. Relógio grande dourado no pulso, estrelas cintilantes ao seu redor — mas já não se ouvia mais os sons de harpas consigo. Vestido de vestes negras bem alinhadas, sapato social de bico de ouro, cordão de ouro, uma insígnia no peito com desenho de olho de dinossauro, e vários emblemas e broches em sua blusa social. 

— Você fez mais um discípulo, Satanás.

— Que honra ser convidado para estar em Vossa presença, seu Didi! E que bom saber...o teu único Faisão Real! Elke Obedece, muito desejei estar contigo, para que você liderasse comigo os sócios, e eu te ensinasse tudo aquilo que o seu Didi não te ensinou.


— És um demônio! - exclamou Ele Obedece.


— Deixa, filho meu. Sou Eu quem te justifica. Eu que defendo a tua causa e o teu ideal. Sou fiel e não te rejeitarei. Eu estou falando, Satanás, que o seu discípulo é Elke Abençoa.


— Opa, melhor ainda! Seremos milionários. Veja como você é lindo, Elke Abençoa. Vou te encher de pedras preciosas, te darei um castelo só para você. Ao invés de tu servires aos anjos, no Hades eles te servirão. Comigo, outras portas trancadas serão abertas — todas, na verdade. Independente do seu irmão, que só sabe falar. No meu principado, você terá poder de potestade. E todos os reinos te darei, se prostrado me adorares.


Ao passo que Elke Abençoa olhou para Elke Obedece — e com o coração endurecido, já determinado em seu coração a servir a Satanás, mas que ainda não sabia como — deixou a soberba e a vaidade entenebrecerem seu pensamento, e ele deu um passo em direção ao capeta.


— Não! — gritou Elke Obedece.


— Sim, eu quero ir. Nós vamos.


— Deus Criador, aos prantos, Te rogo: não me deixe sucumbir!


— Lúcifer, me dá da sua fruta.


— A fruta você já comeu. Resta engolir minha semente.


— Basta. Meu trono não é ambiente para essa chafurdaria. Ponho na mesa duas sementes para cada um de vocês dois, Elke. As sementes negras representam a Mim, que sou o Pai das luzes. As duas sementes douradas representam o plano de Satanás.


Rapidamente, sem mais demora, Elke Abençoa ciscou a semente dourada e a engoliu de uma só vez. Olhou para Elke Obedece, esperando que comesse também. 


Mas o mal... Quando entra em alguém, é instantâneo. A contaminação vibracional é sem demora. Seus pensamentos mudam, sua mente vira. A raiva, a revolta, a sensação de injustiça e o desejo de guerra, o ódio, o desejo de matar, roubar e destruir contaminam. E contaminaram-se, rapidamente, os dois irmãos gêmeos.


Satanás olhou para Deus, tapou somente um dos seus olhos, cuspiu no chão, e pegou Elke Abençoa pelo pescoço, puxando os dois para o abismo com força, desaparecendo imediatamente, como quem puxa um frango para o abate à vista de todos, e arrastando os dois Elke para o inferno.


Elke Obedece não teve tempo de reagir. Não teve tempo de comer a sementinha preta que representava Deus. E imediatamente se sentiu sem ar, sufocado. Uma fumaça tóxica, muito preta, muito vapor de fumo. O calor foi aumentando rapidamente, enquanto desciam infinitas dimensões até o calabouço.


As mãos brancas e delicadas de Lúcifer tornaram-se escamosas e vermelhas. Garras cortantes amarelas apareceram no lugar das unhas. Um bracelete de obsidiana negra estava em seu antebraço. 


E quando Elke Obedece deu por si, se viu sendo lançado dentro de um arcabouço abaixo do chão, à frente do estrado de um trono macabro feito de ossos, crânios, cadeados, correntes embrazadas...


No ambiente ao redor, cavaleiros de armadura pesada exibiam armas de chumbo puro. Haviam  filetes de magma vulcânico que irradiavam um calor infernal, escorrendo pelas paredes rochosas, alaranjando o ambiente.


Elke Abençoa já estava inconsciente. Sua boca espumando, seus olhos tremelicando, e a plumagem de seu corpo virando escamas reptilianas demoníacas. Seu papo inchado como se tivesse engolido um ovo de avestruz, e sem sinal de vida, com o pescoço pendulando como se tivesse morrido.


Abaixo do chão, Satanás bateu com suas pesadas botinas de metal na grade que os prendia, e Elke Obedece, horripilado pelo ambiente nefasto, pelo calor insuportável, pelo temor, pavor e medo — pois ele seria considerado traidor no inferno, porque não se rendeu a Satanás — entendeu que seria torturado eternamente.

Dirigindo seus olhos ao alto, viu Satanás face a face: um monstro totalmente desfigurado, com chifres em todo o rosto, dentes grandes, tortos, desalinhados, fumaça espessa saindo de entre sua boca que não fecha nunca.


E Satanás disse em latim:


— Habemus Papam! O melhor, *habemus* Elke. Então fungou de seu nariz e pulmão um catarro ácido chamado Urca e o cuspiu nos olhos de Elke Obedece, que gritou de dor. Aquilo era fervente e corrosivo .  Debatendo-se dentro da sua jaula, Elke começou a gritar, sentindo aquele cuspe ácido corroer os seus olhos. Ele gritou:


— Deus! Meu Deus! Eloí, Eloí... !!!


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