APOTEOSE : Wolnyah: Uma Viagem ao Mundo Espiritual
WOLNYAH
Viagem ao mundo espiritual
CAPÍTULO 01 – Domingo de Sol
Era um domingo de sol. Entediado de ficar em casa desci e fui para praia. Senti o vento fresco com aquele peculiar cheio de protetor solar misturado com frutos do mar, muito possivelmente camarão frito.
Caminhei rumo ao norte, em direção à Praia de Itapoã, observando as muitas pessoas sentadas nos quiosques, crianças brincando na areia e muita gente passeando em família, no calçadão da Orla da Praia de Itaparica, Vila Velha, Espírito Santo, Brasil.
Fui até a beira do mar, molhei meus pés na água, deixei meu par de chinelos, camisa e boné na areia e entrei no mar.
No verão a água do mar fica limpinha, transparente, é lindo ver os raios de sol penetrarem até o fundo de areia. Nadei um pouco, mergulhei de olhos abertos, coisa que tenho costume desde criança quando a água fica assim e saí do mar pegando uma ondinha de peito, vulgarmente chamado de “jacaré”, de modo a ser levado pela espuma até a beirinha. Peguei meus pertences e segui caminhando.
Como sempre, atento a tudo, atento a todos, observando o máximo de cores e detalhes em cada olhada. Viajante como sou, absorvendo toda a positividade de uma praia cheia de gente por todos os lados: vida! Frescobol, pipa, bola, altinha.
Passei pela colônia dos pescadores. Não é a toa que eu amo os barcos deitados sob os pés de castanheira que, imponentes no verão, verdejantes, nos fornecem tão agradáveis sombras formosas.
Amo ver aqueles barquinhos de madeira pintados com as mais diversas cores, descansando, enquanto seus pescadores limpavam peixes, outros consertavam redes e outros ainda cozinhavam sururus (mexilhões escuros) em grandes galões metálicos.
Voltei à beira do mar. Haviam alguns jovens nadando em direção à Ilha de Pituã enquanto outros retornavam. Naquele local a praia faz uma curva protuberante em direção ao mar, de forma que da ponta consegue-se observar plenamente as longas Praia da Costa ao norte guardada pelo imponente Morro do Moreno e Praia de Itaparica ao sul de igual modo guardada por outra formação rochosa, o Morro da Concha (já na Barra do Jucu).
Eu não transportava nada mais que minha roupa. Decidi então nadar até a ilha cuja travessia é curta e não perigosa. Aliás, é, sim, perigosa, no inverno, entretanto. Pois a frente fria provoca uma forte correnteza marítima que pode te arrastar. Mas no verão é tranquilo. Coloquei minhas havaianas nas palmas das mãos e fui nadando, tranquilamente, para não gastar todas as minhas energias, cauteloso. Água não tem cabelo, já dizia minha finada Vó Joanna.
A Ilha de Pituã é um verdadeiro mini-paraíso 100% capixaba. Que lugar lindo, um espetáculo da natureza. Tem uma praiazinha que nos recepciona, uma pedra alta de onde as pessoas saltam e eu tenho pavor de pular de lá, uma árvore solitária, e tão somente, uma outra praia na parte sul, meio secreta, na qual a natureza demonstra uma das suas maravilhas: a areia é toda coberta por uma camada espessa de concas calcáreas esbranquiçadas. De onde elas vieram? E como foram depositadas justamente ali? Segredos.
Segui pela faixa de conchas até a parte mais ao sul, e por todos os lugares que se transita na ilha, uma magnífica vista dos prédios de cerca de 14 andares de altura na região mais nobre da cidade. Andei pelas pedras, com cuidado para não escorregar. Aproximei-me de uma fenda para ver ouriços e um tipo de anêmona colonial de um verde tão azulado que chega a ser hipnotizante.
Fiquei ali, olhando por uns instantes quando, sem perceber, uma ondulação chocou-se contra a fenda em que eu estava, derrubando-me e arrastando-me para dentro da água. Muitas borbulhas me rodeando, tentei nadar para cima, mas tinha muita água escoando de volta, jogando-me para o fundo. Tentei a todo custo, subir, mas bateu um desespero, eu fui ficando sem ar, comecei a pensar “Vou morrer! Como fui burro! Por que eu fui ficar ali vendo os ouriços?” Lembrei-me de vários casos de pessoas que morreram afogadas em rios, lagoas e mares. Meu fôlego acabou. Fiquei inconsciente. O que aconteceu comigo? É o que eu vou te contar a partir de agora!
CAPÍTULO 02 – Acordei não sei aonde.
Despertei deitado sobre as conchas calcáreas brancas da mesma praiazinha. Despertei assustado, me apalpando, vendo se estava bem, se estava vivo. Sentia algumas dores nas costas, meus braços barriga e pernas estavam todos com vários pequenos cortes, possivelmente feitos pelos sururus na pedra.
Estava com fome e sede. Levantei-me. Minha blusa acordou meio rasgada, não achei meus chinelos nem meu boné. Subi a pedra que ladeava e escondia a pequena praia. Acho que você não vai acreditar, tanto quanto eu também não acreditei. Não vi Vila Velha, não vi prédio algum. Olhei para trás, eu estava na ilha de Pituã, mas onde estava Vila Velha, eu não sei! Então onde eu estava? A impressão era de que eu havia parado atrás do Morro do Moreno, pois a minha frente havia uma montanha de igual tamanho, mas atrás (ou na frente) dele não há ilhotas. Entendi nada. Fazia a mínima ideia do que estava acontecendo.
O mar que me circundava era milhões de vezes mais cristalino e transparente, de um azul celeste tão caribenho, e de uma areia tão branca que até cegava. Constatei, por fim, que realmente eu não estava na ilha de Pituã, apesar da verossímil semelhança. O morro à minha frente tinha uma construção em ruínas em cima dele, com algumas colunas e paredes brancas destruídas e derrubadas. Eu precisava voltar para casa, então entrei no mar para nadar em direção ao Morro, com a intenção de lá de cima observar e tentar achar algum povoado para eu pedir ajuda.
Entre a ilha que eu estava e o morro havia como que um caminho mais alto de rochas e corais, como uma ligação. Com o balanço das ondas, ora o coral brotava, ora era submerso. Até aí, tranquilo, mas as coisas esquisitas começaram a acontecer quando, à medida em que eu caminhava tortuosamente sobre as rochas, as ondas vinham e não inundavam a parte em que eu estava pisando, era como se formasse uma cunha que impedia a água de tocar meus pés. E assim o caminho foi se abrindo a minha frente e, de pouco em pouco, devido à acidentalidade do substrato, fui caminhando.
Chegando aos pés do morro, tive de escalar umas rochas altas de uns 3 a 4 metros de altura, até chegar ao ponto em que se iniciava a mata. Temi pisar em espinhos, encostar em urtiga ou pinão. Mas logo fui subindo, atravessando aquela mata fechada, mas cheia de cipós como cortinas a desvencilhar e folhas e protuberantes raízes ao chão.
Comecei a gritar: “SOCORRO! E AÊ! OLÁ! E AÊ?” Mas não ouvi resposta alguma. Encontrei um trilha e logo a frente uma escada que subia em zigue-zague, que foi se tornando cada vez mais íngreme e os degraus cada vez mais altos, era feita de pedras arredondadas, esverdeadas por líquens e musgos.
Cheguei á construção de paredes brancas, largas, e grandes colunas caídas. Percebi que eram feitas com conchas, e haviam fitas amareladas tremulando ao sabor do vento. Entrei. Realmente estava abandonada. Muitas telhas no chão, os pisos eram de ladrilhos quadrados todos pintados com rosas dos ventos, azuis como os antigos azulejos portugueses. Gritei novamente por socorro, perguntei se tinha alguém por lá. Ninguém me respondeu. Andei pela construção, observando as pinturas ricamente detalhadas nas paredes, moldadas em alto relevo, muito bonitos os entalhes.
Haviam muitos desenhos de homens com roupas parecidas com as de árabes ou beduínos do deserto, igual passa nos documentários da Discovery Channel, montados em Dromedálios e Camelos. Outras bandeirolas amarelas, douradas e brancas flamulavam no alto das colunas que permaneciam de pé. Cheguei a um peitoral e lá de cima pude ver que eu estava em outra ilha, grande, densamente povoada e cercada com muralhas, tipo um forte.
Na hora pensei: UAU! Que lugar é este? Será uma base militar do exército? Mas ainda assim, dava para reparar que o estilo arquitetônico era bem diferente do colonial brasileiro. A maioria das casas não tinham telhas, se assemelhavam a torres e dava para perceber que suas janelas eram estreitas e altas, e não largas e espaçosas como as que temos no Brasil. Continuei não entendendo.
Achei uma outra trilha, também de pedras, ladeada por corrimões de bambu, aparentemente tão abandonado quanto o que me levou lá para cima.
Enquanto eu descia, pude reparar flores bem diferentes e coloridas, como girassóis, porem em diversos tons de laranja, lilás, amarelo também, espalhadas pelo mato. Vi umas aves de igual ou mais perfeitamente coloridos, de cantos e assobios nunca ouvido antes. Pensei: “devo estar na África, ou na América Central ou na Austrália, não sei! Será que algum pescador me pegou e levou para aquele lugar?!
Logo cheguei às primeiras casas e confirmei o que lá de cima tinha percebido: a arquitetura delas era realmente diferente. Eram quadradas, com janelas estreitas, portas baixas e na maioria delas havia como que uma varanda cuja cobertura era de tecido colorido, ou em tom amarronzado ou vermelho, laranja.
Pessoas passeavam nas ruas, também com roupas diferentes, parecia um cetim brilhoso, todos de calça tom de pérola, e as camisas variando nas cores azul ciano, verde limão e amarelão. Haviam muitos animais também. Galinhas, porcos, bodes, ovelhas, jumentos, cavalos, bois e vacas transitavam pelas ruas, alguns destes de maior porte puxando carroças cheias de alimento.
A medida em que fui adentrando no vilarejo ou cidade, não sabia como discernir, fui percebendo que as pessoas me olhavam diferente até que eu entrei em uma feira livre. Mas o idioma das pessoas era diferente, tudo era diferente naquele lugar. Algumas frutas eu reconheci, mas outras não. Pareciam mangas, mas eram roxas com linhas lilás e pontos azuis, um trem de doido. Mas com fome, parei em uma das barracas e pedi comida. Mas não entenderam o que eu dizia. Acenei então com a mão na boca como quem diz “estou com fome e sede”. O senhor da barraca, baixo, de pele branca avermelhada de sol, barrigão, me deu uma bacia com frutas e um cantil de couro com água. Fui beber, era água de Côco! Oh Glória! Que delicia. Entre as frutas só reconheci a banana e o pêssego. Tinha uma outra de casca dura, que o senhor abriu para mim e por dentro era muito parecido com cacau. Vinha um pendão de sementes com uma “carne” amarronzada, um sabor meio de graviola com laranja, um trem de doido. Dá pra explicar muito não!
Ele colocou um banquinho encostado na parede, dentro de sua barraca de frutas e verduras e me indicou que eu sentasse ali para comer. Ele olhava para mim, para minhas roupas... cochichou alguma coisa com a mulher que estava junto dele. Depois eu os encontrei novamente e eles são um casal, mas que não tinham filhos. Ela veio ate mim, me perguntou algo, que eu não entendi. Então ela trouxe a mão ao peito e disse: Tarsila. Encostou no peito do esposo e disse: Abreu. E encostou no meu peito e acenou com as mãos perguntando meu nome. Respondi com o mesmo gesto: Gabriel.
Ela apalpou minhas mãos, viu meu corpo todo lenhado de mini cortes, apertou meus braços, pernas, olhou-me bem nos olhos, como quem procura encontrar alguma coisa lá dentro, ou como um médico olha para saber se há indício de anemia. Então falou mais algumas coisas com seu esposo que eu também não entendi. Não era inglês, nem espanhol, nem francês, nem italiano, nem parecido com chinês. Terminei de comer, agradeci e continuei a caminhar e explorar aquela cidade.
De repente um clarão no céu como quando alguém tira fotos e uma grande buzina soou. As pessoas rapidamente ficaram alvoroçadas e do nada começou a chover. O tempo se fechou, escureceu rapidamente e então a chuva grossa como uma chuva tropical. As pessoas recolheram rapidamente seus pertences, entrando cada qual para sua casa. E assim fui caminhando sozinho, e ensopado, por aquelas ruas barrentas. Até os toldos de tecido recolheram, então não tive outra solução a não ser tomar chuva.
Bateu uma tristeza e algumas lágrimas rolaram de meus olhos. Eu estava perdido, em um lugar totalmente desconhecido, sozinho. As ruas e as casas eram todas parecidas, tive a impressão de estar andando em círculos. Praticamente a única coisa que diferenciava uma casa de outra era a cor do contorno das janelas esguias.
Andando, vagando sem saber por onde ir, clamei em alta voz: “Olá! Alguém aí? Socorro! Me ajudem!.. Oá!... Olá?...” E um pouco mais a frente uma porta se abriu. Era uma casa um pouco maior que as demais, com uma fachada larga, uma grande varanda acima cujo parapeito era tipo de ferro negro, os contornos das janelas era entalhado e o muro dela todo também, entalhado.
Um homem de pele morena, mais ou menos da minha altura, cerca de 1,70m, usando turbante, a mesma calça de cetim perolado e vestindo uma blusa branca com bordados em dourado gesticulou, convidando-me a entrar. Certamente, aceitei.
Entrei em uma sala escura, forrada por tapetes coloridos. As janelas esparsas permitiam-me perceber que era grande e ampla, com armários, mesas e muitos livros espalhados. Meu anfitrião fechou a porta atrás de nós e a sala tornou-se mais escura.
- Sente-se. Disse o homem, falando meu idioma e indicando um sofá almofadado que de tão macio nele afundei. Perguntou-me se eu estava bem, ausentou-se rapidamente da sala subindo por uma escada em caracol e retornou trazendo uma toalha e uma muda de roupas secas. Preparou-me um chá bem quente e forte de anis estrelado com paus de canela.
Ali estava começando a história mais linda da minha vida. As vezes até eu duvido, mas não... não poderia morrer sem deixa-la registrada. Eu, um rapaz comum. Digo, nem tão comum, tenho poucos amigos, sempre fui meio solitário, mais dado a passar horas brincando de lego e lendo enciclopédias. Tudo isso aconteceu e tinha 17 anos. Hoje estou com 34! Então, bota tempo nisso, mas eu ainda me lembro de bastante coisa. E depois disso a minha vida nunca mais foi a mesma.
CAPÍTULO 3 – Primeiro Dia.
Aquele homem aproximou-se da única vela acesa no ambiente, que repousava sobre uma mesa de centro porém alta, compartilhando o espaço com outra xícara de chá e um grosso livro.
A pouca luz clareava seu corpo e rosto. Ele usava um turbante dourado, com o mesmo tom dos bordados de sua camiseta estilo indiana. Era moreno mais escuro que eu, nariz chapoca, beiços protuberantes porém os olhos e as sobrancelhas era finos, delineados como os meus. Tirou a camisa, mas usava um tecido que pendia junto aos seus braços, ao longo do tórax, parecido com as estolas que usam os sacerdotes católicos. Eu não estava entendendo nada ainda. Estava meio pasmo. Era um como sonho, porém vívido, nítido, organoléptico e colorido. Mas eu me lembro que em nada eu sentia dúvidas, ou temores, apesar de algum tipo de espanto, nada me espantava de fato. Era uma sensação muito boa que eu sentia, como se eu tivesse mais alegre e vibrante do que nunca antes.
Em silêncio, o homem estendeu as duas mãos para vela inclinando seu corpo e com este movimento, permitiu-se-me ver que ele usava um cordão com um pingente, um pequeno cristal pendulante.
A cor da chama da vela mudou de amarelo alaranjada para verde azulado. Saltou da vela para suas mãos e com movimentos semelhantes a uma dança oriental a chama azul ia tomando formas geométricas diferentes. Esticou-se como um chicote e em seguida ele fez retornar para a vela, que voltou a ter o mesmo tom amarelo alaranjado do início.
- Gabriel! Você está em Wolnyah! Ele disse!
Isso! Ele disse junto com a voz! Como eu pude me esquecer disso? Desde que eu tinha acordado na ilha que vez ou outra eu ouvia uma voz feminina dizendo: Você está em Wolnyah! Sim! Era isso mesmo! E o interessante é que quando ele disse onde eu estava, a mesma voz falou junto!
Acrescente-se também o fato de que, ao pronunciar meu nome várias outras velas espalhadas pela sala acenderam-se simultaneamente, iluminando tudo e revelando rapidamente muito mais cores, muitas cortinas em todas as paredes e um teto todo decorado, acho que diz em arabesco. E depois se apagaram. Ele fez isso duas vezes. E na terceira vez pronunciou somente o meu nome de forma lenta e enquanto não terminou de dizer as velas permaneceram iluminadas:
- Ga-bri-El... recitou novamente com uma voz suave e prolongada e como eu disse, as velas permeneceram acesas. – Meu amo, seja bem vindo a Wolnyar. O que pulsa em seu coração é uma chama muito mais maravilhosa e poderosa do que estas. O que te perseguiu em sonhos desde sua infância [ Como ele sabia dos meus sonhos de criança? ] eram memórias de um tempo que hoje se te transforma em presente para todos nós. Habitantes, príncipes, reis e sacerdotes da grande terra de Grammet! Me chamo Songhü e te serei por servo, mordomo e também mestre.
Quando ele disse essas palavras, minha mente foi longe! Realmente estava virando realidade. Algo que eu nunca compreendi mas que, ao longo dos tempos, foram se concatenando, os sonhos que eu tinha de repente juntaram-se num quebra-cabeça. E ali estava eu, começando a entender. E agora sim, acabo de me lembrar, passando a duvidar se tudo que estava se encaixando na minha mente seria realmente real.
- Onde? – perguntei.
- Em Wolnyah. Quarto planeta de um dos sóis da constelação de Andrômeda. Nosso planeta se assemelha muito ao seu, antes de ser explorado inescrupulosamente pelos humanos. No começo, seu planeta era puro e os seres humanos se alimentavam mais de energia celestial do que de alimentos. Mas contaminaram-se e perderam a vibração quintessencializada. Tornaram-se agricultores e aprenderam a arte da guerra para terem cada vez mais terras, mais comida, mais festas e mais poder político. Troque suas roupas, vamos dar uma volta.
As peças de roupa que Songhü me deu eram de seda. Calça perolada padrão, uma camiseta larga de manga longa de cor laranja porém sem ter como fechar a parte da frente, deixando o peito e a barriga expostos. Depois ele me ajudou a ajustá-la, juntando as extremidades de baixo por dentro da calça, para mais ou menos fechar um pouco e amarrando com uma fita também laranja. Achei muito belos os bordados em fio amarelo, parecia algo da Tailândia, da china, sei lá, e haviam muitos sóis bordados. Ganhei um calçado muito confortável, revestido por dentro pro uma pele macia como uma pantufa mas por fora era um couro bem grosso, dava para ver pela costura que devia ser bem resistente. Mas fechava nos pés como um sapato de mocacin.
Songhü me mostrou sua casa. Digo, nossa casa, pois eu passei a morar com ele. Era de dois andares. O primeiro tinha uma sala ampla, rodeada por estantes com livros, rolos e pergaminhos. Haviam algumas bandeiras bordadas penduradas e um mapa grande em uma das paredes, cheio de rasuras e marcações em vermelho. Tinha também uma pequena cozinha, separada da sala somente por uma bancada estreita que servia-nos de comedoro, como dizem no espanhol.
O chão era quase todo revestido por uma tapeçaria finamente bordada, que depois ele disse serem feitas de lã de ovelhas e colorida com uma tintura feita de casas de moluscos ferventados em ácido. Havia uma escada em caracol com um pequeno hall no pavimento superior e os dois cômodos, ambos com suíte, somente o meu com a varanda que dava de frente pra rua, dos parapeitos de ferro.
Dentro do meu quarto, pouca coisa, a não ser uma cama, um armário rústico de portas entalhadas e algumas peças de roupa dentro (todas as camisas laranjas porem com bordados diferentes, com exceção de uma só branca com dourado), uma mesa e uma cadeira acolchoada. Um pergaminho em branco e uma caneta de pena estilo medieval com um tinteiro de barro.
O vilarejo em que eu estava ocupava toda a ilha, numa área equivalente a trinta campos de futebol.
Passeando com ele pela ilha de Tamirá (assim se chamava), vi várias casas, armazéns, silos, grandes depósitos, quase todas as ruas são feiras livres com barracas e mercadores, cada qual na frente de sua própria casa, onde comercializavam os produtos. Todas as construções bem parecidas, de um barro esbranquiçado, janelas finas e esguias, altas, portas com abóbadas e sempre uma lona na frente fazendo uma varandinha que também servia como barraca de venda dos produtos que cada família produzia.
As ruas principais eram pavimentadas, as demais eram de barro com algumas calçadas gramadas. Em todas as ruas percebia-se um intrincado sistema de escoamento de água, em todas elas haviam calhas e cortes que rasgavam a rua de um lado a outro, com o intuito de a água das chuvas correrem por ali e não provocarem processos erosivos. Achei bem inteligente. Ah, detalhe: em todas as casas, pelo menos uma janela tinha uma jardineira com flores coloridas ou trepadeiras floridas. Um espetáculo sensorial. Sem falar do cheiro de tempero e comida ou de perfumes e aromáticos que permeavam o ambiente.
Subimos o Monte Mirá, que é por onde cheguei e de onde apresentou-me a ilha. Estávamos à leste. Ao sul havia o Parque de Tamir e à oeste o Porto homônimo, ou seja, também chamado de Tamir e ao norte uma porção mais espessa e alta de muralha, que servia para proteger o vilarejo de ocasionais ondas provocadas pela elevação da maré quando as duas luas de Wolnyah se alinhavam. Nomes parecidos. Mirá, Tamir e Tamirá era o nome da ilha e do vilarejo todo. Lá em cima vi os mesmos quadros entalhados nas paredes, as colunas e a ilhazinha em que aportei naquele lugar misterioso. Naquele momento o canal de rochas já não estava mais tão raso, parecia que a maré tinha subido.
Ah sim, esqueci de dizer que lá o clima era agradável. Sol relativamente quente mas a brisa fresca refrescava bem. O céu estava constantemente límpido, verdadeiro céu de brigadeiro com estranhos tons verdes contrastados por grandes nuvens brancas oceânicas espalhadas pelo horizonte.
Algumas embarcações no mar trouxeram-me a sensação de pertencimento, pois eu amo o mar, amo praia, o sal da água, peixes e principalmente: BARCOS! Songhü disse me que a principal atividade local é a pesca, maricultura e cultivo de pérolas. Sim, eles cultivavam pérolas em ostras gigantes. Uma técnica lá de introduzir uma semente redonda e um ano depois recolhê-la na forma de pérola para fazer colares e tinturas. Também de ostras eles produziam tinturas de diversas cores, bastando controlar a quantidade de ácido ou soda adicionados à fervura.
- Estamos nas Ruínas do antigo Templo do Ar. Cada coluna aqui erigida simboliza a estrutura das construções que o ar está constantemente a construir e destruir, no balé das consciências etéreas. As inscrições nas paredes são orações, pedindo ao Único Deus Altíssimo, Elohim, que nunca nos falte o fôlego da vida, que nossos pensamentos sempre estejam focados nEle. As bandeiras também contém orações e acreditamos que à medida em que os ventos as desfiam perto vai se chegando o tempo de as orações serem atendidas. Já as bandeiras que não se desfiam a gente retira e taca fogo.
- Como faço para ir pra casa? – perguntei.
- A pergunta certa é: Por que eu, digo, você, está aqui? Vou te responder a esta e muitas a outras dúvidas, mas não todas. Por enquanto, basta que você se sinta em casa, até que você seja levado de volta.
- Você disse que estou em outro planeta. Como assim? Cê tá ficando doido? – perguntei já desconfiado de que o louco era eu.
- Como assim? Como assim? Você já viu no seu planeta alguém manipular chamas de velas e elas trocarem de cor? Já viu velas acenderem e apagarem somente ao se recitar um nome? Alguém chama seu nome na porta da sua casa e a lâmpada acende? Ou toca-se algum tipo de buzina automática? Você não está em um mundo material e sim está em um mundo espiritual. E a medida em que você se ambientar, verá coisas que ainda não consegue ver como o templo do ar que está sobre nós e aos teus olhos ainda são invisíveis. Vê as bandeiras?
- Não, respondi. – então, gente só pra explicar. Depois eu vi as bandeiras. São as mesmas que eu descrevo no começo aqui da história, mas tipo: eu só fui vê-las bem depois, bem mais tarde. Entendeu? É por que eu to escrevendo lembrando da história, então eu nem sei como ela vai sair na verdade, mas eu espero conseguir colocar de forma cronológica o que aconteceu, oka?
Então Songhü subiu numa escada que ainda me era invisível e pegou uma haste na qual estava uma bandeirola, cor bege com muitas cosias escritas que eu não consegui decifrar, parece que feitas à mão e em técnica de aquarela. Estava bem desfiada, desfragmentando-se ao toque devido ao tempo, aos ventos, chuvas, sol e intempéries constantes.
De primeira impressão não consegui identificar o que aquelas letras pictógrafas diziam, mas logo se me foi revelado e li um trecho: “Proteja-nos, Senhor, com a tua destra, pois só Tu és escudo e broquel”.
O sol começava a despontar no horizonte. Ficáramos ali por algumas horas conversando, Songhü me contando algumas histórias e a cultura artesã de seu povo.
Quando o sol estava se pondo, foi belo ver os barquinhos com suas velas brancas agora alaranjadas pelo sunset, aportando no Porto. Percebi também que o sol se punha por detrás de longínquas montanhas. Antes de eu perguntar, Songhü me explicou:
- É a terra do reino de Grammer. Eu amo este pôr-do-sol. Vamos.
Meu primeiro dia em Wolnyar foi inesquecível, tudo, de verdade! Todas as cores, plantas, insetos, borboletas infindáveis, flores diferentes, a cor dos peixes, do mar caribenho, o tom esverdeado do céu e todas as casas estilo CTRL C + CTRL V. Como eu gostaria de ir lá novamente. Rezo todos os dias para que isso me aconteça Oh meu Pai! Como era bonito.
Ainda vejo em sonhos, mas quando sonho que eu estou lá logo acordo, para minha tristeza. Fico triste em saber que estou no planeta Terra.
Em casa, meu novo amigo, mordomo como ele gostava de ser chamado, ou então de serviçal, fez um ensopado de um queijo parecido tofu e carne macia, com alguns legumes e cenoura. Muito saboroso, gorduroso, temperado.
Ele disse que eu deveria dormir cedo para descansar e que no dia seguinte teria um presente para mim. Fiquei na varanda uns minutos, observando a cidade a noite, somente com as luzidias janelas esguias acesas e alguma pouca iluminação à luz de lampião nas ruas. Foi tão bom.
CAPÍTULO 04 – Segundo Dia. Iniciação Yalhínica.
Acordei ao som da cítara. Um rústico instrumento de cordas, uma mistura de harpa com violão. Arrumei a cama e fui até a varanda. O sol estava acabando de nos iluminar com seus primeiros raios e já haviam pessoas nas ruas abrindo suas respectivas tendas.
Não pude ver o mar de manhã, pois uma neblina espessa tomava conta da ilha. Só lá pras 9:00 da manhã é que a neblina se dissipava e da varanda eu podia contemplar o mar e seus barquinhos coloridos em diversos tons de azul, verde, roxo e amarelo. Depois fiquei sabendo que cada cor de barco significava um tipo de produto marinho que era explorado.
Tomamos chá de frutas vermelhas, comi uns biscoitos caseiros com geleia de damasco, fruta abundante nas terras do Reino de Grammer e também na ilha.
TOC, TOC, TOC. Bateram na porta. Eram dois anciãos que vieram ao encontro de Songhü. Ao me verem, seus olhos se encheram de lágrimas. Se aproximaram, se apresentaram e me abraçando disseram:
- Hoje nossa esperança se fez viva. Chegou nosso anjo, enviado do Senhor, para nos ajudar a retirar todo o mal e as trevas que nos aflige com diversas pestes. És tu, Gabriel? (desde então passei a entender tudo que as pessoas me falavam e a ler tudo que era coisa escrita).
- Sim, sou eu, Gabriel.
- Viva Jah! Viva Jah! E cadê o seu cristal? Perguntou um dos senhores.
- Eu ainda não dei. Mas que bom que chegaram para testemunhar seu revestimento. Disse Songhü. E Glorificavam a Deus, a J’ah, a quem reverenciadamente proclamavam.
Eles recolheram os tapetes que revestiam o chão da sala, desnudando o assoalho de madeira escura. Afastaram alguns móveis, fecharam as cortinas das janelas e acenderam incensos.
Prostraram-se de joelhos, tirando de seus bornais muitas pétalas de flor e as depositavam em uma bacia com água morna, junto com outras folhas e pós aromáticos, dentro da qual colocaram meus pés. Clamavam:
- Oh Deus Altíssimo, tendes visto a aflição do teu povo. Tendes visto continuamente as preces e orações que constantemente fazemos perante Ti. Saiba-se hoje, responda-nos, ó Altíssimo e delivre-nos. Dá-nos livramento e resposta de Salvação.
Então Songhü veio em minha direção, eu estava sentado em uma almofada alta sobre o único tapete que estava estendido no chão, com os pés dentro da água morna, tapete este muito bonito também, era uma grande flor de lótus aberta, com pétalas intercaladas de laranja e lilás. Segurava em sua mão um cordão com um pingente de cristal, semelhante ao que também utilizava. Não só ele vale a pena dizer que todas as pessoas em Wolnyah usavam um colar como este, de um mineral chamado Yalhina.
Ao aproximar o cristal de mim, taças e copos começaram a vibrar e tilintar do choque uns nos outros. As velas que estavam espalhadas pela sala começaram a se acender, uma a uma, de forma aleatória e desorganizada. E então o cristão se ativou na minha presença.
Brilhando, luzes roxas, lilás, vermelhas, amarelas e laranjas saltavam dele e percorriam o meu corpo. Vi que uma fumaça, um vapor denso e espesso que subia da bacia em que meus pés estavam, cuja água agora fervilhava, então Songhü passou o fecho por detrás do meu pescoço, depositando-o em meu pescoço. Senti com uma agulhada, um peso, algo estrnho na mente e fui tomado por visões. Muitas visões. O tilintar das taças juntou-se a um coro celestial. E eu vi vários tronos e olhos e bocas e asas e cantavam:
- Aleluia! Salvação! Glória, Honra e Poder! Pertencem a Yah, nosso Deus Altíssimo, por que seus desígnios são verdadeiros, e determinou a queda do império das trevas e logo vem com o teu Glorio Reino de Luz! Brilhe em ti! Brilhe em Ti, Ó Gabriel, nós te abençoamos com todas as bendiciones.
E eu me senti tremendamente bem. Nas visões eu via terras, reinos, vi cavaleiros, carruagens, espadas, arcos e navios. Vi pessoas gemendo com fortes dores, pessoas sofrendo com pestes e fome. Vi também uma esfera negra e uma flecha. Ouvi sinos, tambores, senti paz, aflição vi confrontos e vi batalhas colossais.
Levantei-me, impelido por aquela força e através de harmoniosos passos de dança, as luzes, vapores e fumaças dançaram comigo. Houve um leve tremor de terra, livros caíram, copos, taças e jarros também. Fui tomado por uma incrível vontade de desfrutar em um só segundo todo o poder que eu recebia, mas temi, senti medo e instantaneamente as luzes sumiram, junto com a fumaça e os vapores.
Olhei para os lados, luminárias penduradas no teto ainda balançavam. Uma alta e sonora buzina ecoou e todos saíram às pressas de suas casas, lotando as ruas.
Respirei fundo, recobrei meus pensamentos e, ainda meio atemorizado com o que realmente estava me acontecendo, pensei: que parada doida, mano! Na moral! Fiquei extasiado, sentei-me e comecei a chorar. A chorar muito, muito mesmo, de gritar alto e descontroladamente. Pois eu sabia que aquilo um dia iria acontecer. Tantos sonhos tive, ao longo de toda minha infância e adolescência, agora faziam sentido. E Eu? Logo EU? Logo eu? EU? Escolhido? Oh céus!
- Meu amo... – disse-me um dos anciçãos – Você traz dentro de si a chama sagrada. O Fogo Divino, que ninguém mais em toda Wolnyah possui! Nem há milênios possuiu. Fazem cinco gerações que estávamos em absoluta paz e a Chama Sagrada havia retornado para os altares celestes. Agora está em ti. Estamos na sexta geração e tu inaugurarás a sétima geração. Precisamos de você para restaurar a paz em Wolnyah. Vê meu cristal? Brilha! Olhe como brilha de azul! Sou um sacerdote das águas. Sou responsável por fazer orações, devoções e oblações para que nossos rios e mares e chuvas continuem saudáveis para manter nosso povo. Suaruna é meu nome. Aghuito é alto-sacerdote da terra – disse apontando para o outro ancião, já calvo, baixo e de coluna arqueada. Veja como o cristal de Yalhina dele brilha de verde. Ele é responsável pelas nossas terras, manutenção dos ecossistemas florestais, produtividade do campo e saúde dos alimentos. Songhü, seu mestre, é alto-sacerdote dos ares. Juntos formamos o clero alto-sacerdotal e lideramos outros oradores e intercessores a manterem a harmonia de nosso mundo. Mas o elemento fogo é externo, ele só desce ao nosso planeta para reparar uma quebra entre os três elementos fundamentais. Você é o único em toda Wolnyah que domina o quarto elemento, o fogo.
- Meu amo – disse agora Aghuito, o Alto-Sacerdote da Terra – o elemento fogo é muito poderoso. Quem domina o fogo também domina, automaticamente todos os outros demais. Sempre que combinados, fogo e mais um elemento, coisas grandes e poderosas acontecem. Nascemos em uma época em que não vimos com nossos olhos um manipulador do fogo, mas sabemos pelos manuscritos e registros históricos. Deus ilumine Gabriel, Deus, Yah, salve Wolnyah. Receba nossos presentes.
E assim recebi frascos de vidro contendo: um com areia, outro com água mineral e outro com grãos de goma aromática, para queimar e oferecer como incenso. Tudo vibralizado, quintessencializado. Cintas de couro para as mãos, formando luvas, um par de botinas de couro, parecidos com o mocacim que Songhü havia me dado porém de cano alto e um cinto multicompartimentado para transportar ferramentas, poções, pergaminhos. Eu fiquei muito feliz.
Muito feliz mesmo. Com aqueles presentes, eu estava acreditando mais naquela história. Comecei a ser cheio de uma convicção do tipo: “Seja lá onde estas trevas e este mal estiverem, vamos lá derrota-los!”
Depois disso os três Alto-Sacerdotes começaram a me treinar. Contaram-me outras histórias, tradições e folclore popular. Explicaram-me que Wolnyar é um mundo espiritual, onde as intenções do coração são tão verdadeiras quanto as palavras e que as palavras são mais poderosas que ações. Um planeta em que os princípios da Fé e do Amor Incondicional são transformadores e podem muitas coisas. Todas as pessoas são sacerdotes, em maior ou menor grau, dependendo da quantidade de tempo em que se dedicam, todas são responsáveis pela manutenção da paz, da ordem e da harmonia entre os 3 elementos. Em Wolnyar não existe comércio propriamente dito. Cada família produz algum tipo de produto. Há pomares espalhados, hortas difundidas, colônias e mais colônias de abelhas polinizadoras. Muitos criam ovelhas, cabras, jumentos, donde tiram lã, leite, fabricam queijo, carnes e outros derivados. Há quem trabalhe em minas de cobre e ferro nas terras de Grammer, outros na prospecção de ouro, prata e pedras preciosas. Outros trabalham estes metais que são explorados transformando-os em utensílios e acessórios, ou ferramentas. Em Wolnyar não havia guerras há mais de 1.800 anos.
Havia até antes da cisão, somente um continente, chamado de Uinika. Há cerca de quinze anos, entretanto, muitas coisas mudaram e o reino unificado se dividiu em dois continentes, chamados reinos. Reino de Grammer, onde nós estávamos e o reino de Shawn, dominado pelas trevas. Ninguém de Grammer ousou adentrar as densas e espessas brumas que circundavam o continente, nem tinham informações sobre o local, apenas um mapa, que também não era exato.
Antes da divisão dos continentes, não haviam catástrofes naturais, não haviam terremotos, nem furacões, mas desde que o mal entrou no planeta de Wolnyah que alguns desastres estavam ocorrendo, cada ano com mais intensidade e mais calamitosos.
O continente de Shawn rapidamente se afastou, sumindo por trás das cortinas de neblinas oceânicas. E como eu disse, ninguém nunca entrou para saber como estavam as coisas por lá.
Em nossos treinamentos íamos ou para o parque, ou para o porto ou para o monte, sempre pela manhã. Inciávamos sempre à luz dos primeiros raios solares, com uma prece e jejum prolongado. Este se iniciava antes do pôr-do-sol de um dia e seguia até o meio-dia do dia seguinte, sem água ou comida.
Fazíamos meditações, entoávamos cânticos, rezávamos preces. Buscávamos que a Luz Divina irradiasse em nossos corações despertando em nós os dons que se nos haviam sido confiados.
Os três mestres possuíam poderes sobrenaturais sobre cada elemento e partícula de matéria. Aliás, poderes na verdade naturais, bastando se dedicar a desenvolvê-los. Lá era comum, era normal que as pessoas tivessem experiências com as consciências divinas e com os habitantes dos três reinos elementares fundamentais: terra, água e ar. O fogo não era um elemento dominável, não haviam sacerdotes do fogo, pois era como o sol, externo e afastado do planeta. O fogo é um elemento não natural.
Com seus poderes, os mestres podiam manipular a matéria, fazendo com que rochas se brotassem rapidamente do solo, núvens, chuvas, trovoadas, raios, trovões, ventanias! Eram verdadeiros construtores do clima e condições favoráveis ao plantio. Estavam buscando despertar em mim a capacidade de também manipular estes elementos e forças da natureza.
Devo dizer e reconhecer que não foi muito difícil manipular os elementos pois devido aos sonhos que eu tinha quando criança, sempre brinquei de mago!
Mas a primeira coisa que eu precisaria dominar era a mim mesmo. Dominar minhas emoções, sentimentos, pensamentos, intenções, desejos e frustrações. Deveria liberar perdão a todas as pessoas que de alguma forma me magoaram, deveria pedir perdão, ainda que estando afastado delas, às pessoas que prejudiquei, pedir perdão às dimensões do espaço-tempo por ter estado em lugares errados e não ter estado no local certo na hora certa.
Pedir misericórdia no tempo favorável. Precisei anular a mim mesmo, principalmente através dos jejuns e preces que, com o tempo, já não me eram mais um fardo, e sim fortalecimento. Cada dia mais forte, cada dia mais pleno, cada dia os elementos foram me obedecendo com mais exatidão e meus poderes rapidamente se desenvolveram.
Precisei correr, nadar, fazer exercícios de respiração, erguer minhas mãos, adorar ao Deus Criador Yah, ou Jah, dependendo de como você quer invoca-lo. Diz-se Jah quando você o vê como um Pai, antropomorfizado, com sentimentos e emoções humanas, que ama, que sente, que sofre, que corrige ao filho em um instante e no segundo o afaga. Diz-se Yah quando você o vê como o Todo-Poderoso, assim como um Sol, criador, emissor de toda energia cósmica, de toda a vida, em todo a sua Glória e Esplendor.
Precisei receber minha missão, declarando em alta voz que eu aceitava tudo que estava determinado por Deus ao meu favor e que eu aceitava ajuda e instrução para remir o tempo e ter sabedoria.
Nunca estive tão sereno em toda a minha vida. Ali deveria ser algum lugar no mundo espiritual, por que não é possível que eu, um rapaz tão impulsivo, tão compulsivo, tão estressadinho e imediatista não tivesse relutado ou sequer questionado, apesar de ter feito muitas perguntas, sempre aceitei minha missão.
Por outro lado, lembro-me dos sonhos que eu tive na infância, sempre os tive. Desde que eu me entendo por gente, que eu já sonhava com tudo aquilo que estava acontecendo e de alguma forma já sabia de coisas que iriam acontecer, só o final derradeiro de como seria a batalha do bem contra o mal é que eu não sabia e eu viva tentando pela manipulação da energia elemental descobrir como eu aniquilaria o mal, a quem eu deveria matar.
Fossem bons ou na forma de pesadelos, muitos dos sonhos apontavam para este lugar e isto me trazia paz. Agora entendo por que sempre fui fascinado pela ilha de Pituã, aquele lugar sempre me soou mágico. Lembrei-me agora de que esta mesma sensação é a que eu sinto na Igreja dos Três Reis Magos em Nova Almeida- Serra/ES. Nossa aquele lugar é especial, mel dels! Que vista maravilhosa! Enfim, eu deveria #mesmo ter sido escolhido ou chamado, por que eu me sentia em muita paz, com muita força e coragem, fé, esperança e doçura no falar. Eram princípios que eles me ensinavam.
Passavam mais tempo em horas falando comigo sobre vícios e virtudes, sobre a diferença do ímpio para o justo e também sobre as grandiosidades de Deus do que fazendo exercícios e treinamentos “militares”. Para eles, domar os meus pensamentos e intenções era muito mais importante do que manifestar poder, pois o poder sem amor é opressor. Com amor o poder é libertador. Tudo foi muito bom. Até hoje eu desfruto uma verdadeira calma na alma só pelas coisas que eu aprendi lá em Wolnyar.
Estávamos na segunda semana de treino. Foi ficando cada vez mais comum eu ter vislumbres de luz, ouvir vozes e sussurros celestiais, cores e tons de arco-íris espalhados por aí. Estava no monte Mirá, no templo do ar, quando consegui fazer minha primeira bola de fogo. Ela era linda, límpida, cristalina, cintilante. Ela parecia um portal para o infinito e dentro dela eu via muitas portas dentro de outras portas, infinitamente.
Em alguns dos exercícios de respiração aproximei uma mão da outra, como de costume. Eu senti mais que arrepios, senti mais que formigamento e senti um calor muito maravilhoso quando, ainda de olhos fechados, eu conseguia ver a bola de energia entre minhas mãos. Mas tipo um medo me sobressaltou, eu me desconcentrei e ela se desfez.
Estamos Songhü e eu. Ele não viu, muito embora tenha sentido e percebido no meu olhar que algo tinha acontecido.
A medida em que os dias passavam, eu fui esquecendo de contar. Fui conhecendo algumas pessoas na vila. Elas sentiam algo especial quando eu passava. Algo além do intenso brilho que seus cristais emitiam quando eu ia me aproximando. Alguns até levitavam em minha direção como se eu fosse um grande ímã e seus pingentes porcas de ferro.
Logo a notícia se espalhou e eu virei um cara popular. Todos sorriam ao me ver e me falavam da Esperança que tinham em ver a comunidade unida e alegre à uma só voz: a esperança nasceu!
Disseram-me que haviam pessoas doentes nas terras de Grammet, e que eu deveria me comportar bem e ser muito responsável. Essas mensagens meio que me bagunçavam todo por dentro, meio que me constrangiam, consternavam-me, emocionavam e também me atemorizavam.
As pessoas perguntavam-me quando eu ia viajar e me traziam presentes. Ganhei um arco, flechas, adaga, outro par de botas, roupas, um par de brincos e um piercing para o nariz. Uma sineta de bronze para usar em orações. E pergaminhos que se eu tiver oportunidade, escreverei o que neles continha.
Eu ia me acostumando com a ideia de viajar estava cada dia mais confiante nisso. Não poderia derrotar o mal de Wolnyar sem sair daquela ilha, poderia?
CAPÍTULO 05 – O Elemento Ar.
O elemento ar é o mais dinâmico dos três elementos naturais e seu domínio é sutil, estando muito relacionado com as aspirações, sonhos e desejos. O ar é a base do metabolismo aeróbico, precisamos respirar para viver. É o elemento da distração, da cantoria, das mensagens telepáticas e também da intuição. Os órgãos do corpo relacionados são: nariz, boca, garganta e pulmões.
Manter uma respiração profunda e consciente é o mecanismo chave para a regulação do pH do sangue, para ajudar a acalmar a mente e liberar as impurezas dos pensamentos.
Nossos corpos são compostos por corpo, alma e espírito. O corpo é o que tocamos. A alma, percebemos e o espírito: vivemos sem perceber. O espírito existe independente do corpo. É fluídico, inteligente, ponte de conexão com o Espírito de Deus e cerne da nossa consciência.
Nosso corpo é composto pelos órgãos, ossos, músculos e sistema nervos. Da fusão do espírito com o corpo temos a alma. Esta também é regida pelas energias astrais e planetárias, principalmente durante o nosso período de formação fetal, pois o corpo recebe as radiações cósmicas e a sequência delas definirá grande parte da nossa personalidade. Do resultado do encontro do espírito no corpo, acrescido das experiências vividas desde o útero é que podemos identificar a alma: pensamentos, sentimentos, emoções, desejos, vocações, decisões. O corpo é terra. O espírito é fogo. E a alma são o equilíbrio das correntes de água e de ar.
Para ativarmos nossos poderes do ar precisamos de um lugar aberto, de preferência onde hajam pássaros, tranquilo, silencioso, em que você possa sentir seu respirar, sentir suas emoções e pensamentos. É bom aromatizar o ambiente com incenso ou uso de algum perfume calmante. Locais com fumaça ou poluição sonora não são bons ambientes para trabalharmos essa energia em nós.
Para ativar sua energia do ar, Leia o pergaminho da salvação número 12 várias vezes, se possível de forma cantada. Instrumentos de sopro também são bem vindos, lembrando que a fonte de toda a vida é o Deus Yah Altíssimo e Criador, único no mundo espiritual digno de relacionamento, glória, louvor e adoração. Isso é muito importante saber para que você não atraia consciências decaídas e usurpadoras que são negativas e mentirosas. Quando meditar, invoque a Jah.
Deixe a paz de Deus entrar no seu coração, entoando: Graças te dou, ó Senhor Criador! Yahleh! E levante suas mãos em adoração.
Movimentar o corpo através de gestos lineares também ajuda na liberação dos canais de energia. Concentre toda a sua respiração, pensamentos e movimentos na adoração em rendição de graças ao Deus criador pelo seu fôlego de vida! Diga: Aleluia!, Glória a Deus, Obrigado Senhor!
Essas coisas aprendi com Songhü. Certamente estou resumindo, porque ele me foi passando estes conceitos a cada dia e ele me ensinou bastante coisa, mas aí você encontra um bom resumo prático. Pois tem muito tempo que estas coisas aconteceram, já não lembro com tantos detalhes. Só o principal. E como nunca contei muito esta história para as pessoas, e é a primeira vez que eu escrevo, então... você entende, né?
Estas coisas que eu aprendi foram muito boas para que eu me tornasse um canal de Graça e Gloria Divinas pois o ar é muito dinâmico, altamente obediente às palavras que você pronuncia e mais ainda reativo com o calor e as minhas bolas de fogo. Foi misturando os dois que eu consegui explodir alguns jarros de barro, um vaso de cerâmica caro, sem querer, abrir portas, fechar janelas. Levitar foi o máximo, mas eu morro de medo de voar sem nada para segurar. Então, que você tenha boas práticas.
Que Yah te abençoe.
CAPÍTULO 06 – Tamirá tremeu.
Era bem cedo quando a terra tremeu forte. Muitas coisas na casa de Songhü foram ao chão: livros, vasos, quadros, a mesinha do meu quarto tombou e o jarro com água se espatifou. Ainda estávamos dormindo e foi assim que acordamos: assustados. Nossas camas tremendo mais que cama massageadora, tudo tremendo, tudo estalando, a sensação de que a casa desmoronaria.
Descemos as pressas a escadinha em espiral e fomos para a rua. Os sinos da torre da praça central próxima ao porto estavam tocando, toda a população da ilha saiu de suas casas e ocuparam as ruas. Ouvimos dois barulhões e depois ficamos sabendo que duas casas antigas ruíram, graças a Deus sem feridos. O mar ficou agitado fazendo com que os barcos chocassem-se uns contra os outros, quando não contra o píer.
Logo a maré subiu e veio arrastando os barcos ruas à dentro. As ondas que se chocavam contra os muros do norte ficaram tão fortes que muita água subia, como um spray de gêisers; as quais carreadas pelos ventos provocaram uma fina chuva salgada sobre parte do vilarejo.
Songhü pegou um balão de couro e com a energia do ar, alçou às alturas para poder ver longe, se haviam outros perigos em nossa direção ou alguma outra maior vinda do oceano. Foi quando viu dois olhos negros desenhados no céu. De cima viu Suaruna posicionado no cais do porto para conter as ondas do mar.
As ondas da maré alta que adentraram pelo porto vieram lamacentas e lotadas de peixes mortos, que ficaram como que encalhados, distribuídos pelas ruas quando a água desceu.
Falando em descer, antes que Songhü pousasse em terra, uma espessa neblina malcheirosa e sufocante cobriu toda a ilha, ocultando meu mestre de meus olhos, fazendo a todos tossir e depois ficamos sabendo que algumas crianças e idosos chegaram até a vomitar tamanha sinistridade daquele vapor maldito. Toda a ilha de Tamirá foi afetada.
Todos os tamiranenses se mobilizaram para ajudar uns aos outros. Barcos tiveram que ser transportados de volta para o mar, outros tiveram que ser consertados, as ruas de serem limpas, muitos vasos desses de flores que ficam abaixo das esguias janelas foram ao chão, e havia muita sujeira em toda a ilha. Parte da horta comunitária teve de ser refeita. Muitos escombros foram retirados, muitas algas fétidas também. Os peixes que vieram mortos rapidamente entraram em estado de decomposição.
Perguntei-me como um lugar tão perfeito como aquele poderia sofrer um desastre como esse? Se não fossem os alto-mestres teria sido pior? De onde veio aquela fumaça quase tóxica, inebriante? E que olhos eram aqueles que eu também vi no céu? Nossa, só de lembrar deles eu me sinto tão mal quanto no dia. Teria sido uma visão, ilusão ou coincidência? Eu pensava comigo mesmo.
- Foi Yanko. Disse Songhü.
- Quem?
- Yanko, príncipe regente de Shawn, da maldição e portal das trevas em Wolnyar. Ele é quem nos atribula. Por causa dele Unnika foi repartida, por causa dele estamos em desarmonia, pessoas ficaram doentes. A peste, a poluição, a morte e desastres estão acontecendo. Ele é nosso adversário número um.
- Adversário? Você quer dizer inimigo?
- Sim, é o nosso inimigo contra quem você vai lutar e aniquilar.
- Meu Deus! Tá queimado e repreendido!
- Ainda não está queimado, nem repreendido, Gabriel. Mas logo em breve você será cheio do poder do fogo e das chispas eternas e você o queimará por completo. Queimá-lo-ás e repreendê-loás.
Minha nossa, meu pai eterno! Doidera em! Agora ficou tenso! Caí de novo na real, de que nem tudo são flores, nem todas as rosas são perfumadas, em todas elas encontramos espinhos.
- E esse tal de Yanko é o que mesmo?
- Nosso inimigo, Gabriel. É nosso alvo. Nós precisamos aniquilá-lo de Wolnyar. Não basta escravizar as pessoas em Shawn e liberar todos os demônios para atormentá-las fisicamente. Ele tem provocados vários desastres e catástrofes maiores do que estas, como falei, provocando sofrimento, dor, morte, problemas em toda Wolnyar. Como você vai derrotá-lo? Não sabemos ainda. Mas Yah Jah Piá Deus Todo Poderoso vai te capacitar, pois sabemos que você vai vencer. As trevas não podem prevalecer contra o poder da Luz Divina.
Derrotá-lo, derrotá-lo, derrotá-lo! Essas palavras ecoaram na minha mente. Esse negócio de aniquilar, lutar, batalhar para vencer para mim era muito complicado. Logo eu? Contra um cara que do outro lado do mundo consegue produzir um terremoto e uma nuvem tóxica? Esse tal de Yanko é tipo um filho do cão, verdadeiro papa do satanais na terra e agora o bagulho ficou doido.
E agora? Que vou fazer? Quero ir pra casa! Mãe! Mãaaaaaaaae! Socorro! Quero voltar pra casa. #SQN Só que não. Respirei fundo, segurei as lágrimas. Eu tenho essa missão e preciso cumpri-la. Aliás, já estava cumprindo porque meus sonhos estavam se cumprindo. Não pode ser um pesadelo assim tão pesadelo. Eu tinha muito medo, mas por outro lado tinha algo dentro de mim dizendo que eu ia conseguir.
Eu não podia morrer, podia? Falando nisso, estou vivo ou morto? Porque este lugar é fascinante, mundo espiritual, que viagem é esta? Eu heim.. to doido então?
E foi com a mente bombardeada com esses pensamentos que trabalhamos energeticamente para lavar as ruas, colocar as coisas no lugar. Achei impressionante a capacidade que as pessoas tem de manipular os elementos. Vários sacerdotes da água... como posso dizer? De suas mãos saíam jatos fortes de água para lavar as ruas, enquanto sacerdotes da terra moviam os barcos, removiam os entulhos e os sacerdotes do ar moviam os objetos somente com o movimentar das mãos! Que lindo, na moral!
Derrotá-lo, derrotá-lo, derrotá-lo! Isto não saía da minha cabeça, me lembro bem! Naquela noite Songhü e eu preparamos algumas raízes com sabor de fruta-pão, cozidas. Comemos com manteiga e mel, canela e queijo. Tomamos suco de frutas que recolhemos por aí e fomos dormir. Ou melhor, tentar dormir, né, pois eu mesmo não conseguia. Revirava-me prum lado e proutro. Assombrado, verdadeiramente. Assombrado, pelos olhos que eu vi no céu. Será que aqueles olhos também me viram? Este tal de Yanko estaria tentando me afetar, me atacar de algum modo?
Será que ele sabia que eu estava em Wolnyar?
CAPÍTULO 7 – Noite insone
Algo me incomodava. Eu precisava fazer algo. Peguei no sono, tirei um cochilo e sonhei. Sonhei que eu estava em um lugar com várias pessas doentes e acorrentadas. Via uma floresta toda incendiada, aquela sensação tóxica novamente, de não conseguir respirar direito e até meus olhos ardiam, ardiam bastante. E eu ouvia muitos gritos, vozes de longe ecoavam: Socorro! Pare, está doendo! Alguém me ajude! E havia choro, gritos e lamentações. Era muito triste. Tão triste que só de lembrar me dá vontade de chorar.
Acordei desesperado, suando frio. Tinha sido um sonho. Não lembro até que ponto sonho ou realidade pois foi vívido, nítido e real, sei que eu acordei com meus olhos ardendo, como se eu estivesse em contato com aquela fumaça vinda da floresta em chamas.
Levantei-me, desci. Fui para sala e comecei a vasculhar livros e pergaminhos. Naquela altura eu já entendia plenamente a linguagem daquele lugar, cujas letras eram todas meio quadriculadas, com riscos para cima e para baixo, meio parecida com sânscrito. Pesquisei por títulos, li índices, separei capítulos, marquei folhas, grifei parágrafos, estudei mapas.
Fiquei fascinado com tanta novidade, tanta coisa diferente. Ali aprendi que tudo é vida! Tudo tem vida, transpira vida, exala vida! Tudo tem energia, emite luz, cores e sons. Tudo fica registrado em outras dimensões akáshikas xxx do espaço e tempo. Li sobre botânica, geologia, cristalogia, sobre movimentos, atitudes, ações, gestos, sobre tudo está conectado e percebi que o planeta Terra não é tão diferente de Wolnyar. Só que as pessoas aqui são más e praticam atos de desonestidade umas contra as outras. Isso endurece seus espíritos e suas capacidades de verem o mundo espiritual. Se as pessoas amassem mais e cuidasses mais umas das outras, ou pelo menos se importassem com a dor do próximo com certeza despertariam para a espiritualidade. O dinheiro pode até ser importante para poder se ajudar alguém mas nada tem o poder transformador quanto uma palavra, uma mensagem de paz e esperança a uma pessoa que sofre.
Dormi debruçado sobre os rolos e pergaminhos. Sonhei de novo. Sonhei que eu voava e eu ajudava a uma lagarta a sair do casulo. No sonho ela tinha dificuldade e precisava de ajuda para sair dali. Então eu me aproximava dela e dizia: por amor de ti, dou minha vida! E uma casca grossa era rompida e saía uma linda borboleta de lá de dentro. Tive um sonho bom, dormi pesado. Acordei bem tarde, já perto do almoço. Songhü deixou-me descansar bastante, mas acordei no sofá da sala. Sabe quando você realmente dorme bem e acorda despreocupado? Foi assim. Se eu pudesse até sugeriria o mesmo para você. Por que não se deita um pouco e tira um cochilo? Vai que você tem um sonho bom para me contar, a respeito de coisas que eu não lembro sobre Wolnyar?
CAPÍTULO 8 – Em direção ao Reino
Dias depois Aghuito e Suaruna foram nos visitar. Trouxeram um pergaminho-real, uma carta da Princesa Kalai. Estava escrito:
- Altos Mestres de Tamirá, precisamos da ajuda de vocês. Soubemos que o Yaaleroy chegou. Sejam bem recebidos em meu Palácio. Saudosamente, Princesa Kalai, do Reino de Grammer.
- Chegou a hora de irmos, Gabriel. Reúna alguns pertences – disse Songhü.
E assim nos dirigimos à terra do Reino de Grammer, governada pela Princesa Kalai ao norte e Príncipe Kyom ao sul, ambos filhos do falecido rei Grammer.
Fizemos uma travessia tranquila porém com adrenalina a mil. Suaruna se encarregou de formar uma elevada ondulação que empurrou o barco a uma elevadíssima velocidade. Eu segurei bem forte, temendo que o barco virasse, e entendi mais ou menos a sensação de um surfista surfando uma grande e longa onda de pororoca, o capitão teve muita perspicácia ao conduzir a escuna em que estávamos. Depois de algumas horas, eu ainda tenso, terra à vista.
Navegamos em direção à cidade costeira de Itao em cujo porto atracamos. Sabe aquelas praias abarrotadas de gaivotas na areia e nos ares? Assim era aquela região portuária, um lindo espetáculo ver tantas aves marítimas dando mergulhos prodigiosos e retornando aos ares com um peixe em seu bico.
Quando desembarcamos uma carruagem nos esperava. Conheci então o embaixador Bassivier e fomos para uma catedral administrativa, formosa e grande, de colunas imponentes, com duas enormes estátuas com leões alados de pé nas entradas e vários servidores com trajes típicos e capacetes emplumados.
- Altos mestres, agradecemos a disponibilidade de vossas senhorias. Espero que tenham feito uma boa viagem. Seja bem vindo, nosso Yaaleroy, saudações fraternas – disse o embaixador, reverenciando-me e pondo-se rapidamente de joelhos. – Nossa próspera cidade vos saúda com salvas de especiarias, um presente, aceite, rogo, nossa humilde oferta.
Participamos de uma breve cerimonia em que o embaixador Bassivier me colorou com cordões de contas coloridas, nos alimentamos e partimos para outro cais, atrás da catedral em que uma embarcação maior, parecida com uma balsa nos aguardava, para nos levarmos para o interior do reino de Kalai.
Embarcamos no rio da Aliança, de águas barrentas e rasas. O estuário é um verdadeiro manancial de vida. Plantas aquáticas formando um verdadeiro tapete florido com lótus de cor lilás. Aves brancas de pernas esguias como garças, outras de plumagem alaranjada outro espetáculo daquela natureza aparentemente intocada, com cantos, pios e assobios uns mais belos e distintos que os outros. Uma coisa que me chamou a atenção foram as carpas-de-fogo que saltavam para fora dágua para capturar insetos voadores. Lindas, tão coloridas, constrastando suas cores também laranja com a cabeça amarela, constrastando com as águas marrons.
Tudo muito calmo, a balsa indo lentamente pelo estua´rios. De repente, tive um reflexo, um impulso, não sei dizer direito se foi um tipo de intuição de que aglo não estava bem e vi nas águas os mesmos olhos negros, observando-me tenebrosamente, quando uma serpente gigante apareceu das profundezas. Com sua calda bateu na balsa e alguns homens caíram na água, afugentando assim os peixes e as tais garças de pena branca que saíram voando pelos céus afora.
As águas tornaram-se negras como esgoto e um cheiro podre asfixiante como havia impregnado a ilha de Tamirá tomou conta do ambiente.
Aghuito e Suaruna se posicionaram em batalha, tentando amarrá-la com raízes enquanto outro tentava empurrá-la para as margens com a força da água. Songhü retirou os servidores que haviam caído, a balsa parou sua navegação, pois as águas tornaram-se espessas como um lamaçal.
A cobra conseguia se esquivar das raízes, com seus movimentos sinuosos e a luta continuou. Eu fiquei sem reação, segurando-me na lateral da balsa até que a serpente gigante como uma anaconda foi imobilizada e soltou um guio, um assobio sufocado que me arrepiou até a alma e fazendo com que muitos de nós ficássemos paralisados. Então fui tomado de um ímpeto de coragem e chamas se formaram em minhas mãos. Lancei bolas de fogo contra a serpente, o que a fez se debater e se soltar novamente das raízes mas sua relutância acabou quando Songhü lançou uma espada volante girando em sua direção. Imprimiu tanta força e velocidade que cortou o pescoço da gigantesca cobra, esguichando litros de um líquido negro e viscoso como petróleo. A espada de Songhü retornou para suas mãos como um bumerangue.
Morta a cobra, Aghuito com seus poderes da terra fez com que um bloco monolítico a aprisionasse e a carregasse para fora do rio da Aliança, sobre as margens. Suaruna tentou em vão tornar o lamacento ambiente em águas liquidas novamente, então teve de fazer descer mais água vinda da montante para elevar todo o nível das águas o que inundou toda a planície em que navegávamos. A cabeça da serpente, à nossa frente, tinha uma marca em seu couro como que tendo sido feita a ferro quente.
- Isso é obra de Yanko, disse Aghuito. Mas como ele consegue isto? Não bastasse transformar a metade do reino de Unnikav em um império das trevas onde reina ladeado por monstros e demônios, seus lacaios, tem conseguido nos desestruturar. Gabriel, tu que és nosso Yaaleroi, percebe o porquê de nossa luta? Se deixarmos e permitirmos, Yanko vai minar nossa paz, tirar nossa qualidade de vida, aterrorizar todo nosso planeta, tornando-o num antro de maldade, iniquidade e corrupção.
Perdemos muitas horas de nosso precioso tempo. Homens quase foram mortos, estamos com alguns feridos. Um dos servidores quebrou o braço quando a serpente acertou a balsa com força. Que mundo é esse? Perguntei-me.
Como a maldade de um só homem pode fazer coisas tão terríveis? Não sei até que ponto igualáveis às maldades e crueldades que vemos nos noticiários do planeta Terra. Mas aquele mundo era lindo, e perfeito.
Os servidores tiveram mais um problema a resolver: algas e sujeira orgânico que entupiram os motores.
- Eu já desentupi os encanamentos mas o motor eu não estou conseguindo enxergar com a minha visão espiritual – disse Suaruno.
- Vamos velejar! Disse Songhü.
- Mas a balsa não tem velas, nossos motores são engrenagens, vejam os homens que pedalam – disse o capitão. – Nem se costurássemos nossas roupas e as prendêssemos conseguiríamos fabricar uma vela para rebocar toda esta balsa, que é pesada.
- Então vamos surfar! Disse Suaruna.
E da mesma forma com que viajamos de Tamirá para o Reino, o mestre da água liderou outros servidores sacerdotes da água também, trazendo milhares de metros cúbicos de água para fazer uma ondulação capaz de fazer a balsa ser projetada para frente. Fechou os olhos e concentrou-se. Seu crista, eu vi, brilhou de azul intensamente e várias luzes de diversos tons azulados as envolveram e o cercarem. Com movimentos ondulantes dos braços e pernas, como uma dança mística, o barco foi soerguido pela onda e assim pegou velocidade.
- Segurem-se! Afirmou.
Cada homem se segurou no que pôde e sentimos um forte tranco, vindo de outra onda que se chocou contra o barco fazendo com que água entrasse no convés, acelerando bastante a balsa que já começava a tomar velocidade.
Estávamos sendo levados para o interior do continente por uma verdadeira pororoca. E eu, novamente abismado com “como aquelas coisas aconteciam?” Como poderia a natureza ser tão maleável e tão moldável às vontades e intenções dos sacerdotes? Será que na Terra poderíamos fazer algo assim? Você, que está lendo, acha que estas coisas fazem sentido, ou melhor, fariam sentido aqui em nosso planeta? Será que nós, seres humanos, vamos dar conta de despoluí-lo e transformar nossa casinha em um ecossistema harmônico?
De vez em quando os sacerdotes da água se posicionavam à proa da balsa para reforçar a onda e nos impulsionar novamente. Assim navegamos cerca de trinta e dois quilômetros Rio da Aliança a dentro.
Logo a paisagem mudou, não estávamos mais na planície do estuários e sim rio a cima. A largura do espelho dágua, de margem à margem se estreitou bastante. Subimos o rio ladeados por paredões de arenito com dois até quatro metros de altura. Não me interprete como um bobão, mas a cada curva de cada fissura de rocha eu olhava deslumbrado. Tive que procurar no google imagens de rochas para descobrir que o arenito é o que mais se parece, é daquele jeito que estão nas fotos, lindas camadas, em curvas que... enfim, eu tava me sentindo como? Turistando! Sem contar que a cada dia que passava eu me sentia mais conectado com Wolnyar. Eu sentia a água, sentia o vento, sentia até as rochas do fundo que já eram possíveis de serem admiradas, pois a água já, naquela altura, eram transparentes. Aves rajadas nos acompanhavam de cima. Vimos castores, capivaras, ariranhas nas águas. Sobre os paredões, vez ou outra eu via grandes gatos, como felinos selvagens que davam saltos, curiosos, observando-nos passar. Parece que todos me conheciam, tudo tinha e tudo tem consciência. Continuo com essa sensação de que até mesmo cada grão de areia da praia tem sua própria consciência.
CAPÍTULO 09 – Elemento Água.
Suaruna explicou-me: a água é o elemento da inversão. È preciso fluir naturalmente. Sem movimentos bruscos, para ativar nosso poder da água. A água está relacionada com nossos sentimentos, emoções, amor protetor. Também relacionado com ás mágoas amargosas, das expectativas às frustrações. Os órgãos relacionados com a água são o coração, o fígado, o pâncreas e os rins. São órgãos que bombeiam, ou que liberam hormônios, enzimas e/ou filtram o sangue. São órgãos que trabalham em ciclos harmônicos.
Para ativarmos nossos poderes das águas precisamos estar em contato com elas, seja num lago, praia, mar aberto, rio ou cachoeira. Em cada um destes lugares a água se comporta de uma forma diferente, como se cada lugar tivesse (e tem) sua emoção ou estado emocional próprio. O sono do lago, a alegria da praia, a seriedade do mar aberto, a atenção dos rios ou a fúria das cachoeiras.
Para ativar sua energia da água, movimente seus braços e mãos em movimentos circulares e ritmados. É preciso ter uma combinação dos passos e fazê-los repetidamente.
- Aqui em Wolnyar quando nascemos todos ganhamos um cristal de Yahrelina xxx. Pela cor do brilho sabemos qual elemento será a base do sacerdócio e relacionamento com Deus. Branco é ar, azul como o meu, é água e verde é terra. O elemento fogo não nos é dado – Explicava Suaruna.
- O fogo, ou a chama divina é um elemento muito poderoso. Há poucos rolos e pergaminhos falando sobre ele, mas você o tem. Você carrega a chama divina. Busque-a dentro de si mesmo. Busque ao Deus Altíssimo, pois Ele é o Senhor das chamas eternas. Limpe suas mãos e mantenha seu coração puro para que você possa entrar pelas portas no santuário divino. Eu fiquei muito surpreso com as bolas de fogo que você fez para nos defender da serpente. Elas chisparam translucidamente. Muito belo. Nós somos seres de paz, mas você está aqui para fazer guerra. Nós temos um inimigo e você vai derrota-lo. Foque na Luz de Deus e Ele vai te iluminar.
E assim foi. Cada dia de treino foi tornando-se mais fácil eu fazer boas de energia, bolas de fogo. E eu fui navegando ali, sentado no topo da cabine, sentindo todos os elementos fluindo em mim. Suaruna fez um minuto de silencio, posicionou uma das mãos em frente ao coração e imantou uma gota de água com muita energia e me pediu que eu fizesse uma bola de fogo. Fiz. Ele então colocou a gota dele dentro da minha bola. No instante em que ambas se fundiram, eu fui tomado em visões: vi as fontes dos montes, vi cascatas, cachoeiras, senti uma profunda sensação de silencio e auto encontro, somado a um tipo de peso, semelhante à pressão que sentimos no ouvido quando mergulhamos e começou a chover torrencialmente. Isto é, vale lembrar, chovia sem ter nuvem alguma no céu, que estava azul límpido como afirmam “de brigadeiro”.
Muito bonito, encantador, libertador, tudo que eles me instruíam a fazer era muito bom e me fazia muito bem. Eu sentia paz e alegria como eu nunca tinha sentido antes. Eu estava me sentindo em casa. Aquele era o lugar do qual eu nunca deveria ter fugido. Lembrei-me de quando eu era criança e vivia brincando de fazer bolas de energia, eu tinha me lembrado disso. Aceitei com mais tranquilidade minha missão, pois eu vivia em conflito comigo mesmo. Afirmei:
- Eu estou aqui, me chamo Gabriel e sou Wolnyar. Eu sou parte do todo e todo está em mim.
Levantei-me vribrante e com alegria meu corpo todo incandesceu e liberei diversas bolas de energia, cordões de fogo, dancei, fiz uma série de movimento, liberei calor, liberei amor, liberei solidez e confiança. Fiz água subir, fiz água descer, fiz um muro de águas, por onde minhas mãos apontavam, fendi rochas e também penhascos, cortei os ventos e fiz uma ventania. Gritei:
- AAAAAAAAAAAAAAAAH!!! ALELUIA! GLORIA A DEUS! MARAVILHA DO ETERNO! – e comecei a rir.
Os servidores do reino ajoelharam-se e prostraram-se em reverência a Deus pela minha vida. Olhei feliz para Songhü e os outros alto mestres e eles inclinaram-se rapidamente também saudando-me. E, gente, sério, na moral, eu não sou maluco! Fiquei tão feliz! Tanto que eu nem sei como explicar como eu fiquei, foi tipo um pequeno êxtase de alegria!
- Songhü! Sou eu! Eu, cara, eu fui escolhido! Eu? Songhü? EU! – e comecei a chorar. Chorei muito. Chorei mesmo! Eu, eu, eu escolhido! O cara mais esquisito, bizarro, bisonho, eu era mó retardado! Na escola eu sempre brincava sozinho, nem jogava futebol, nunca “peguei” ninguém. Eu era um zero a esquerda, eu era um faz merdinha. Mas com todas as minhas doideras, era tachado de louco, meus sonhos e fantasias, sim! Era Real! É Real! E eu estava ali, estava ali. Era real. E a batalha também era. Vou te falar mais. Assim como chovia naquele dia em Wolnyar agora também, enquanto escrevo, chove. Mas aqui tem núvens no céu. E tá que chove.
CAPÍTULO 10 – Capitais irmãs
Chegamos a Guapemai e Keotai, cidades irmãs do Reino de Grammer. Gloriosas cidades cercadas por verdes pinheiros a perder de vista, palmeiras deslumbrantes a cercar o lago que se formava a nossa frente fundo o qual encontrávamos o Porto de Maitai, onde desembarcamos.
Fomos recebidos por uma cavalaria real e servidores muito bem vestidos de cetim pérola e dourado, munidos de trompetes que quando tocados fumaças coloridas saíam como jatos e iam subindo colorindo o céu enrosado. Só num lugar desse pra eu ser recebido com tanta honra.
Várias pessoas lançavam às aguas velas flutuantes e salvas de flores pela minha chegada. Eu fiquei meio tímido, meio sem jeito.
Os servidores não me deixaram carregar nenhuma mala. Fomos recebidos por outro embaixador e descobri que Bassivier era o termo que designava sua função e não seu nome verdadeiro, pois lá os embaixadores não deviam ser chamados pelo nome e sim pelo cargo que ocupavam – uma forma de mostrar que deveriam ser imparciais pois também acumulavam funções jurídicas. Este, então, era um senhor bem idoso, baixo, barbudo e magro. Ele estava à porá de uma belíssima carruagem branca e dourada que nos esperava. Fomos direto para a Catedral Real.
Guapemai e Keotai são cidades irmãs, localizadas aos pés dos Montes Centrais (que por casa da divisão do continente Unnikavxxx passaram a se chamar montes ocidentais). São grandes vilarejos urbanizados, as cassa são feitas de tijolos de arenito bege esverdeado, os telhados são íngrimes, altos, feitos de ardósia cinza polida.
Passamos por um portão de ferro adentramos um amplo jardim florido cheio de borboletas de todas as cores que você imaginar. Apresento-vos a catedral real: um imponente palácio com colunas cilíndricas de mármore, com uma cúpula esférica e rodeada por doze torres cada uma ornada com uma bandeira e sobre elas um altar de incenso.
A carruagem adentrou a Catedral. Desembarcamos e subimos uma elevada sacada de escadas de engrenagens rolantes, movimentada por servidores que pedalavam como que em bicicletas. Chegamos ao pavimento superior, cuja sala dos tronos reais é aberta, sem portão algum e bem iluminada. Lá estava o casal de irmãos Príncipes Reais, nos esperando. A princesa Kalai é linda. Dona de um rosto largo, boca fina, nariz pontiagudo, vestia trajes reais em seda fina, branco reluzentes com fios dourados. Revestidas estavam suas mãos uma luva branca que vinha até a altura do cotovelo e portava em uma de suas mãos, um grande leque de penas. Seu irmão, Príncipe Kyom, igualmente usava uma luva branca. Era mais baixo que ela, e aparentemente mais novo que eu, como se tivesse uns quinze anos de idade, seus olhos eram mais arredondados, mas também tinha o mesmo nariz pontiagudo e queixos um pouco mais largos.
Receberam-nos com abraços, beijos na testa e coroas de flores brancas, assim como eles também usavam. Recebemos um kimono de seda e nós, quatro alto-mestres assentamo-nos em uma farta mesa.
- Seja bem vindo, Yahleroi XXX, Gabriel, nosso príncipe, enviado pelo Deus Altíssimo para regeneração de Wolnyar – disse a Princesa Kalai – A sua vinda é uma benção também para meu irmão Kyom – que fez um gesto de aceno com a cabeça – e para todo nosso povo em todo Reino de Grammer.
- Yahleroi e altos-mestres, sirvam-se. Temos pães, bolos, sucos, chás, carnes, geleias e um sem número de servidores a vossa disposição – disse o Príncipe Kyom – depois falaremos sobre a geurra. Temos uma surpresa para você, Gabriel, Yahleroi, mas só vamos te mostrar amanhã. Nossos reinos estão a disposição de vocês. Nosso pai, o excelentíssimo senhor Grammer não está presente conosco, mas de onde estiver, estaria, com certeza, muito orgulhoso de você. Desde já declaramos que nós te amamos como se você fosse nosso irmão. Sinta-se em casa. Faz quatorze anos que nosso pai se foi, eu praticamente não o conheci, mas sempre soube que fora um grande homem.
O Rei Grammer era o 63º monarca da linhagem. Viveu até os cinquenta e seis anos, quando foi envenenado por sua mulher, rainha Dammarka XXX. Era um homem de média estatura, forte, pele clara e alto sacerdote do elemento terra. Seu reinado foi marcado por concluir o projeto iniciado por seu bisavô de ampliar as cidades, aumentando o espaço das casas de seus súditos, pavimentando as ruas e instalando sistemas sustentáveis de captação de água das chuvas e tratamento de esgoto e resíduos orgânicos. Na época, o continente de Unnikav era composto por dois reinos, que levavam o nome de seus soberanos, Reino de Kligüer e Reino de Grammer.
O soberano Kligüer era tio de Grammer, porém com pouca diferença de idade e ambos eram apaixonados pela mesma mulher, Rainha Dammarka, que no fundo amava a Kligüer mas se casou com Grammer por cobiçar as lindas cidades daquele reinado.
O casamento entre os dois acabou quando Dammarka descobriu que seu esposo visitava uma mulher camponesa, com quem teve uma filha antes do casamento real, a então Princesa Kalai. Dammarka ficou possessa de ciúmes. O seu coração se obscureceu, deixou de lado os princípios espirituais da aceitação e da rendição e em vez de manter uma boa postura digna do seu posto, maquinou um plano para matar a Grammer e tomar para si todo o reinado.
Em seu plano manipulou o Rei Kligüer e o convenceu a ser o único soberano sobre toda Wolnyar, necessitando para isto matar Grammer e casando-se com ela, fazendo assim com que o nome do Rei Kligüer fosse venerado e inesquecível na história de Wolnyar.
Pensaram juntos como tornar o plano realidade sem levantar suspeitas nos palácios, nos templos ou nas ruas. A melhor solução seria envenenando o rei e ninguém o saberia. No entanto Dammarka estava grávida e queria adiar logo o casamento com Kligüer para que não dessem o reinado ao filho legítimo de Grammer. Preparou então um banquete real, em que somente os três estavam convidados. O veneno havia sido preparado por Kligüer, pois era conhecedor de plantas terapêuticas e animais peçonhentos, conseguiu separar uma pequena porção de um veneno paralisante e mortal de um pequeno sapo negro encontrado no alto das cordilheiras das Montanhas Centrais. E puseram o veneno na comida servida ao então Rei Grammer.
Dissimulada, a própria Dammarka serviu ao esposo, ostentando pose de Rainha e boa-esposa, fez questão de dar ao Rei de comer, servindo-o e colocando a comida em sua boca. Com o efeito tóxico do veneno, o Rei Grammer teve uma parada cardio-respiratória, de noite, dormindo, e morreu roxo como uma berinjela, no colo de Damarka, em seu próprio palácio real. Instantes depois Songhü chegou ao palácio, voando em seu balão autoinflável, invisível e silencioso, adentrou pela janela.
Tirou dos braços de Dammarka o corpo do rei e tentou animá-lo instilando antídoto que fora feito conforme foi instruído em visões pelos elementais do ar. Mas chegou tarde demais. Se o Rei já estava morto quando chegou ou não, não se sabe, mas ele me contou a história dizendo que o Rei Grammer morreu em seus braços.
Songhü relatou para o conselho popular e Damarka e Kligüer foram julgados e condenados à prisão perpétua. Quando o júri leu a sentença final, trombetas celestiais ecoaram, o céu se enrolou como um pergaminho e uma voz estrondosa se ouviu em todo reino de Unnikav:
- O Reino de Kligüer foi condenado. Damarka lhe será dada por esposa e sua terra será separada. Receberão a justa retribuição pelos seus atos de maldade, isolados do outro lado do mundo, em um continente que se forma agora, dominado pelo medo, pavor, trevas e mortes.
E assim Dammarka e o tio do falecido Grammer foram declarados casados e transportados para o Reino de Kligüer. Quando ultrapassaram as fronteiras, milhares de corvos e morcegos desceram dos céus e passaram a circundar o reino, impedindo que pessoas de lá saíssem ou nele entrassem. As trevas baixaram, densas nuvens de fétida podridão o cercaram e os Montes Centrais se fenderam e assim o continente de Unikav XXX se desmembrou em dois. A gravidez da Rainha Dammarka se interrompeu precocemente, dando a luz a dois meninos, os quais foram abandonados por ela. Um foi levado por carruagens elementais do ar e entregue a Songhü, sobre o qual foi revelado ser filho de Grammer, a quem batizou de Kyom, que significa “dia alegre” e o educou até os oito anos de idade, quando foi então levado para sua irmã, Kalai, que na época estava com doze anos e já reinava junto com o conselho-real que foi criado para que a tutorassem.
O outro neném, foi batizado de Shawn, e como o Rei Kligüer morreu em menos de um ano após se casar com Damarka, o nome daquele continente passou a se chamar Reino de Shawn. Dizem que ele foi abandonado pela Rainha, mas seu paradeiro certo não se sabe. O que se sabe é que as trevas tomaram conta daqueles soberanos: a ira, o ódio, o rancor e a mágoa passaram a fazer parte de suas vidas. Palavras de maldição eram proferidas para o povo. Demônios passaram a atormentá-los, monstros a apavorá-los. Bestas-feras invadiam as casas e devoravam crianças vivas. As pessoas foram vampirizadas e muitas cantavam este cântico de lamentação enquanto trabalhavam escravizadas: - arde, consome, o fogo queima sem parar.
Durante o julgamento, Songhü foi o defensor-real dos interesses do Rei Grammer e trouxe a luz o relacionamento deste com sua servidora, Yanne, com quem teve a filha Kalai. Assim sendo, foi coroada Princesa e Songhü foi eleito como Regente-Real, governou o Reino de Grammer por 13 anos XXX, até que Kalai se tornasse maior com vinte e um anos de idade, quando então subiu ao poder.
Confiante da educação que ela e seu irmão Kyom receberam, dividiu com ele o Reino e este começou a governar com doze anos de idade, na porção sul da Cidade-Real de Gaopemai, agora batizada pelo Príncipe Kyom de Keotai e deram ao rio Gaope o nome de Rio da Aliança. Anualmente festejavam juntos pelo aniversário das duas cidades, todo dia dezessete do mês Shadday, o primeiro do ano, a Festa da Aliança. Estávamos, naquela época, em 06 de Shamah, à quase setenta dias da festa.
Wolnyar demorava duzentos e cinquenta e dois dias para dar uma volta em torno do sol, divididos em nove meses de vinte e oito dias cada. Uma das luas completava seu ciclo de rotação a cada vinte o oito dias, marcando assim cada início de mês no dia da sua aparição ao final da tarde na forma de lua nova e a outra lua a cada noventa e dois dias, ou seja de três em três meses. O ano só tinha duas estações, verão e inverno. O verão era caracterizado pelo posicionamento do continente do reino de Grammer na linha do equador e o inverno pelo posicionamento do mesmo no Trópico Austral. Ambas as luas se alinhavam duas vezes no ano, fazendo com que as marés subissem incrivelmente e por este motivo as cidades litorâneas eram afastadas da beira-mar e os estuários eram enormes.
As temperaturas variavam entre 22ºC e 32ºC nas regiões baixas, 12ºC no alto dos Montes Centrais e 42ºC no deserto de Nerei. A biodiversidade era incrível. A maioria das plantas eram comestíveis. Mesmo as não comestíveis produziam flores carnudas que alimentavam com néctar ampla população de aves, morcegos e abelhas polinizadoras, todos muito importantes para a elevada produtividade agrícola. em Wolnyar não haviam pestes ou doenças. As crianças eram ensinadas a cuidar umas das outras e a não maltratar os animais. Orações, preces e intercessões ao Deus Altíssimo Yah, ou Jah se faziam como parte do cotidiano das pessoas e também em datas solenes. O calendário é solar, por o lunar ajuda a marcar o início dos meses e todas as três festas anuais são voltadas para adoração e gratidão pela produtividade dos frutos agropecuários.
As pessoas se alimentavam bem, seu cardápio altamente nutritivo era composto por raízes, tubérculos, folhagens, legumes, frutas, temperos, chás, sucos e águas saborizadas que ajudavam em muito a manter todas as pessoas saudáveis e imunes, cuja defesa era reforçada com o auxílio de fitoterápicos que combatiam o colesterol alto, regulavam os índices glicêmicos, pressão arterial e ainda algumas outras protegiam os dentes de cáries e dores.
Atividades de lazer, caminhadas ao ar livre, encontros para alongar e o trabalho manual artesanal aumentavam a longevidade. Bons sentimentos, bons relacionamentos faziam as pessoas só terem boas lembranças e não ter mágoas umas das outras, nem ira, ou impaciência coisas do tipo. Tudo para o equilíbrio da tríade corpo-alma-espírito. Aliás, a vida espiritual é o cerne de toda vida em Wolnyar e as coisas deveriam ser ensinadas ou pelo menos experimentadas assim no Planeta Terra. Seria, certamente, um planeta muito melhor. Era mais ou menos assim que viviam e ainda vivem as pessoas de
Wolnyar. Quem me dera voltar lá! Ain, meu corassaum.
CAPÍTULO 11 – 07 de Shamah
Ficamos hospedados em quartos separados altamente luxuosos, com fino acabamento. Pé direito triplo, janelas esguias e altas, cortinões de lã bordados, tão grossos quanto tapetes. Lustres e luminárias aromatizados, aromatizadores e incensários espalhados. Enormes tapetes cobriam todo o chão dos quartos como também de todo o Palácio. Songhü tinha levado sua cítara e a deixou energizada na janela, fazendo com que pequenas correntes de ar a tocasse sozinha. Dormimos ao som de cítara e acordamos ao som de trombetas, nossa tomei um susto!
Servidores trouxeram-nos um mini banquete com comidas típicas do Reino. Tubinhos de alga com peixe, frutas e salsão, sopa de ervas meio amargas com carne salgada. Lembro de ter feito até uma cara feia na hora que experimentei a sopa, mas fui bem interpretado pelo meu mestre Songhü.
- Vai te fortalecer. São alimentos fortes.
Nos preparamos e descemos. No saguão principal estavam os dois príncipes irmãos, quatro conselheiros reais, os outros dois alto-mestres Suaruna e Aghuito e mais outros treze mestres vindos de todo o reino, sem contar os muitos servidores prontos para nos atender como garçons que esperam o chamar de seus fregueses, todos de pé, juntos às bandeiras hasteadas como cortinas nas paredes.
- Bom dia a todxs – abriu o Príncipe Kyom nossa reunião – sejam bem vindxs. Agradecemos a presença de todxs vocês que hoje se reúnem nesta assembleia extraordinária do Alto Conselho Real, sendo a pauta de hoje a seleção do aparato militar e as estratégias de invasão à Shawn e consequente enfrentamento das terríveis forças demoníacas que lá imperam. Com a sua palavra, o excelentíssimo Primeiro Ministro da Guerra, assim excepcionalmente nomeado para esta necessidade, senhor Roner Eitan.
- Bom dia a todos e todas. Bom dia Princesa Kalai, que gentilmente nos empresta seu palácio e residência para esta tão importante e urgente reunião. Príncipe Kyom, todos os alto-mestres, nossos representantes legítimos, eleitos pelo nosso Deus Yah, servidores testemunhas e nosso amado e tão esperado Yahleroi XXX, Gabriel, estamos reunidos para discutir as estratégias para esta épica guerra que estamos por enfrentar. Temos um inimigo, identificado como Yanko, um alto-sacerdote, fruto das maldições advindas ao reino do falecido Kligüer, já que cometeu aquele desativo passional, que culminou com a morte de nosso glorioso rei Grammer. Há algums meses, como muitos aqui sabemos, celaramos guerra ao reino de Shawn, mas não tivemos resultados positivos. Tivemos grande dificuldade em aportar em terra e quando conseguimos não obtivemos bom êxito, já que os esgotos, podridão, ataques de monstros, feras e demônio provocaram a baixa de oitenta soldados, e se não recuássemos poderia ter sido pior. Atualmente temos quatro mil servidores bem treinados para guerra, destros em armas como espadas, lanças, arcos e muitos deles manipulam bem os elementos, especialmente quando trabalham sincronizados. Temos alguns bons mapas do mundo antigo e uma perspectiva de como este reino caído deve ser geograficamente. Precisamos traçar novas estratégias, mas eu passo a palavra para nosso tão esperado Yahleroi para que ele nos diga o que fazer!
- Contesto! – Interpelou Songhü –Gabriel não está aqui há nem uma lua sequer e não tem condições de responder a um questionamento como este.
- Contestação aceita – respondeu a Princesa Kalai.
Abriu-se então a deixa e vários comentários e burburinhos encheram o salão. Não, eu fiquei, sem ter onde enfiar o rosto, tamanha vergonha. Por outro lado, Songhü estava certo! Eu não sabia o que fazer, não tinha nenhum treinamento de primeiros socorros, que dirá treinamento militar! Eu também não tinha força física, era magricelo só sabia consertar computadores o máximo que eu pude fazer foi manter a calma. Mas uma coisa eu tinha em mim, lembrei agora, que se chama FÉ. Sim, Fé eu tinha! Eu tinha Fé. E de novo, fé. É uma coisa que eu realmente tinha dentro de mim, ainda que não tivesse a mínima ideia de como seria esta batalha, mas se eu era escolhido para aquilo, então eu tinha algo a meu favor. Aquela deixa pra mim transformou-se em afronta e se tem algo que eu não gosto é de ser contrariado. Já não bastava apanhar na escola e ser perseguido na rua, poxa até em Wolnyar eu seria motivo de piada? Não consegui conter as lágrimas e a Princesa Kalai interrompeu o bafafá para me dar a palavra:
- Você tem algo a dizer, Gabriel?
- Sim, tenho. – e o silêncio tomou conta do salão – Eu sou um jovem rapaz. Não nasci neste planeta mas acho legal tudo que estou passando aqui.
- Voce acha legal o que estamos passando? – fui interrompido por alguém.
- Olha –retornei – vocês não me conhecem e não conheço a nenhum de vocês. Eu sei que posso não ter as qualificações militares ou de domínio elemental que vocês querem ou esperam mas de uma coisa sei: a minha vida inteira sonhei com estes momentos em que estamos vivendo. Talvez tanto quanto vocês ou mais eu fui atormentado em sonhos, tendo pesadelos, sonhando com Wolnyar, com o Reino de Grammer, com Shawn, com Songhü. Quando eu era criança eu brincava de manipular e dominar elementos. É algo que está dentro de mim e se tem algo que eu tenho é FÉ! Eu tenho fé e convicção de que vamos ser vitoriosos. As vezes queremos controlar tudo temendo não alcançar os resultados esperados. Mas quando estamos na direção de Deus, tudo dá certo. Tudo é possível ao que crê, e eu tenho fé. Podemos traçar novas estratégias, vamos lutar, vamos guerrear, mas esse negócio não é só nosso! Esta guerra é do Senhor! Essa guerra é de Deus e é no poder do Seu nome que VAMOS VENCER!
Ao concluir minhas palavras um servidor tocou uma trombeta, em sinal de aprovação e muitos se levantaram para aplaudir.
- Junte-se a isso, o Gabriel demonstrou sua capacidade ontem, enquanto vínhamos de balsa. Enfrentamos um monstro, uma serpente marinha enorme qual anaconda e depois disso o Gabriel exultou em força. Demonstrou habilidades com os quatro elementos. Precisamos é investir nele, acreditar com ele, treiná-lo e, juntos, inspirá-lo a ter esperança, força e coragem para entrarmos lá e seja o que Deus quiser. Nos vamos lutar mas é no nome de Yah é que vamos vencer! – Arguiu, positivamente, o mestre Suaruna.
Aghuito XXX pediu a palavra e disse:
- Eu concordo que Gabriel receba treinamentos militares. Alguém mais? E novamente várias pessoas falaram ao mesmo tempo, eles discutindo o que haveriam de fazer comigo. Eu também concordava: treino militar, arte da luta, estou dentro! Ia parar de apanhar na escola quando voltasse para casa.
- E as incursões? O que vamos fazer? – alguém perguntou ao Primeiro Ministro, que respondeu:
- Temos que votar. Podemos enviar os quatro mil em um só grupo, ou em dois destacamentos de dois mil cada, podemos enviar somente dois mil e deixarmos outros dois mil na retaguarda.
- Você é o Primeiro Ministro e o que você decidir faremos, mas decida por nós! – alguém o interrompeu, dizendo.
E assim seguiu nossa reunião: diversas formas de invadir foram debatidas, tipos de treinamento que era preciso, armas, ferramentas, métodos de ataque, enfim.
Fiquei cerca de duas semanas no Palácio da Princesa Kalai e outras duas semanas no Palácio do Príncipe Kyom, a seu convite. Eu e Songhü seguíamos inseparáveis, sendo treinados todos os dias fazendo meditações, jejuns, orações, preces, rituais, danças, movimentos, exercícios, corrida. Agora acrescentam-se artes marciais, musculação, manuseio de armas: espada, bastão, lança, escudo, arco-e-flecha. Eu ficava exausto. Começávamos no nascer do sol e íamos até a segunda metade do dia, quando o sol começava a esfriar e então almoçávamos e ficávamos livres para voltar a meditar. Mas praticamente quando anoitecia eu me recolhia e ia dormir. Nos primeiros dias senti muitas dores musculares, mas fui acostumando.
Passeamos de charrete pelas duas cidades irmãs. Conheci parques, aquedutos, piscinas públicas, estações de tratamento de esgoto, hortas comunitárias, grandes mercados de trocas, torres de vigília e adoração, templos dos elementos. Nestes, em especial, tive experiências maravilhosas. Fui envolvo pelas energias, minhas roupas e armaduras de couro de jacaré mudavam de cor, fui tomado por visões. Vi símbolos, desenhos, estórias, contos, muita coisa dentro de mim foi revista, nos pensamentos, sentimentos e forma de ver o mundo. Passei a ver a vida como uma grande dádiva da existência, que Deus é tudo em todos e cuida maravilhosamente de suas criaturas. Ainda que muitas delas venham a sofrer em algum momento de suas existências, todas as coisas colaboram para o bem, no fim de tudo o Senhor enxugará de todos os olhos as lágrimas e o fim de todas as coisas é estar e viver permanentemente na Sua presença em adoração junto com anjos, assim aprendi nas visões, que são chamados de Serafins, que declaram Sua Santidade, dizendo: Santo, Santo, Santo!
CAPÍTULO 12 – O Elemento Terra
Aprendi sobre o poder da terra que é o elemento da estabilidade, da confiança, da perseverança nas ações do bem.
Está relacionado com o estômago, fígado e intestino, órgãos responsáveis pela digestão dos alimentos.
Para mantermos nossa energia da terra ativada devemos ancorar em nós a aceitação da realidade, de nossos defeitos e qualidades, saber lidar com isso. O pensamento cria, o sentimento dá vida, mas só através de ações é que transformamos a realidade.
Para ativarmos sua força telúrica é imprescindível estar em contato com a terra, dentro de uma floresta ou areia da praia, sempre sendo importante estar com os pés bem fixados ao solo. Você pode segurar uma rocha e deve fazer um exercício de agaixamento. Subir e descer e fazer movimentos brutos com os pés, pernas, braços e mãos. Instrumentos de percussão são bem vindos e você pode recitar também o cântico de salvação 35.
Ao mexer com as forças da terra é possível erigir colunas, construir casas, promover plantações, criar estradas, canais para o escoamento da água, escadas e paredões. É possível fazer plantas crescerem mais rápido. A Terra é base, é vida, é sustento, é ação, é trabalho suado.
Sempre que você pisar ao chão, lembre-se que você está vivo, em uma jornada, possui uma missão de vida e que onde você colocar seus pés revela o teu caráter e quem você é. Enquanto as tuas mãos te revelam o que você faz, teus pés te levam e onde você frequenta te diz o que você é.
CAPÍTULO 13 – Estratégias de Invasão.
A estratégia de invasão que foi determinada é a seguinte: dois mil homens ficariam em Grammer para manter a segurança caso haja um contra-ataque e dois mil iriam para Shawn em barcos, um total de cinquenta embarcações com quarenta pessoas cada. Destes enviados, oitocentos permanecerão nos mares e mil e duzentos vão desembarcar e seguir como um grupo unido. Em todos os grupos haverão soldados, arqueiros, servidores de apoio e sacerdotes.
Enquanto eu era treinado com exercícios de tática militar, as carpintarias e serralherias trabalhavam a todo vapor, confeccionando os barcos, consertando outros, fazendo armas. Costureiras também foram mobilizadas para confeccionar roupas reforçadas com couro de crocodilos, jacarés e cascos de tartarugas.
Dentro do grupo de flecheiros haviam os que usavam estilingue e entre os soldados de infantaria haviam os que lutariam com bastões de bambu centenários.
Passados exatamente vinte dias desde a reunião, juntamos todo o exército do reino e outras pessoas envolvidas, num total de sete mil pessoas reunidas à 01 só voz no pátio da Catedral Real.
CAPÍTULO 14: 27 de Shammah XXX de 4.715
Tronos foram postos à entrada do salão principal, de frente para o povo, para que cada um integrante do Conselho Militar se assentasse. O Príncipe Kyom deu abertura à solenidade:
- Saudações ao povo do Reino de Grammer! – e soaram as trombetas – Neste vigésimo sétimo dia do mês de Shammah XXX do ano de 4.715, estamos reunidos para abençoar este próspero povo que no dia de hoje se congrega, em torno de sete mil pessoas, para adorar ao nosso Altíssimo Deus Yah! – e tocaram as trombetas – Na presença da Princesa Kalai, imperatriz-mãe do povo, Primeiro Ministro de Guerra, Roner Eitan, Songhü Elkirion, nosso amado líder, que governou por doze anos e demais alto-sacerdotes e mestres da Corte Real, damos início às preces, orações e danças e invocações ao Altíssimo Deus Yah! – e tocaram as trombetas – Ó povo de Grammer, unidos com uma só voz, adoremos ao Criador com os Cânticos de Exaltação números 93, 67, 66e 97. Faça, Princesa Kalai, a leitura do Cântico.
- Saudações, ó povo do Reino de Grammer! – e tocaram as trombetas, tomou a palavra a Princesa Kalai.
Ela, cheia de alegria, orgulhou-se por ver tamanha multidão reunida. As vestes reais com que nos vestíamos, as grandes bandeiras do Reino, e suas cidades ali representadas, estendidas, revestindo as doze torres, as prias com fogo sagrado coloridos em diversos tons, acima dos quais formavam-se espessas colunas de incenso... E eu, vestido de laranja e roxo, destacava-me pelas vestes de todos os demais, pois somente eu usava aquelas cores na indumentária. Os servidores, todos bem vestidos, portando turbantes brancos, armados com as armas que seriam apresentadas, os músicos, instrumentistas, e o povo, com bandeirolas hasteadas, bordadas com faces de animais em especial leões, bezerros e águias, outros com bordados floridos em todas as cores do arco-íris. A Princesa Kalai leu:
- O Senhor Deus Altíssimo Yah Reina! – e tocaram as trombetas – Está vestido de majestade! – e tocaram as trombetas – O Senhor se revestiu e cingiu-se de poder. O mundo de Wolnyar está firmado e não poderá ser abalado nem vacilar.
Os instrumentistas de sopro, harpa, tambores e estalistas, flautistas começaram a entoar o hino de adoração, enquanto bacias com salvas de flores, frutos e folhas aromáticas, as melhores porções, eram oferecidas nas piras de fogo, abafando o fogo e espessando ainda mais as colunas de incenso, uma fumaça de arome suave e agradável, sacrifício de louvor, incenso puro consagrado com sal ao nosso Deus Jah.
- O Senhor nas alturas é mais poderoso do que o ruído das grandes águas, e do que as grandes ondas do mar. – e tocaram as trombetas.
Os cânticos foram entoados, intercalados com preces pela ativação doas poderes dos elementais terra, água e ar e demonstrações de poder, sempre ao som de entradas exatas do toque das trombetas!
Um pássaro negro pousou de frente para o meu trono. E me observava. Eu o vi mas não notei nada. Ele ficou por ali ciscando e me observou novamente, momento em que eu olhei para ele e vi seus olhos bem avermelhados. Percebi que era enviado por Yanko, pois seni o peso das sombras neles. Tentei enxotá-lo sem chamar atenção, mas foi em vão. Tive de fazer um chicote de fogo. Ao sair voando um rosto negro formou-se atrás dele e nuvens negras rapidamente se formaram no céu, escurecendo o dia e ventou forte como se uma tempestade fosse irromper a qualquer momento. Mas ninguém vacilou. Os sacerdotes do ar e da água, cheios da Glória e do Poder de Deus, logo repreenderam o mal em nome do Ungido, Enviado de Yah e as trevas se dissiparam. As nuvens saíram e logo o sol voltou a brilhar. Fomos recompensados uma gloriosa chuva em tom rosa, que baixou as colunas de fumaça de incenso e os fortes e agradáveis aromas encheram todo o Palácio Real.
As pessoas jubilaram de confiança e alegria, os sacerdotes da terra davam saltos trampúlicos! Todos ficaram felizes, todos foram cheios de esperança, força e coragem, fé na vitória, estavam todos prontos para tomar o poder.
O Cântico de Salvação número 67 roga pela misericórdia de Deus e sobre a resplandecência de Sua Elevada Luz sobre os rostos de todo o povo! Tao Glorioso que o Senhor respondeu dos altos céus. Pessoas choravam de emoção, todos a uma só prostrados de joelhos, os instrumentistas pararam de tocar, a Princesa cantou, em prantos:
- Julgarás os povos com equidade, governarás sobre as nações! Yah nos abençoará e todas as extremidades de Wolnyar o Louvarão!
Neste momento ouvimos trombetas tocadas por anjos celestes que se faziam perceber pelo brilho dourado de asas voando ed um lado para o outro. E um grande arco-celeste, com todas as cores do arco-íris desenhou-se em torno do sol, vívido como uma pintura. Lindo, lindo!
Eu, cheio dessa vibração poderosa, não me contive e fui para o meio da multidão. As pessoas jubilavam e queriam me tocar e muito poder saía de mim. Eu tentava caminhar, meu cristal brilhava como o sol, todos os pelos do meu corpo arrepiados, minha roupa laranja pegava fogo e eu levitei a alguns poucos centímetros do chão. Eu liberava bolas de fogo, baldes cheios de azeite ungidos faziam as pessoas serem tomadas em danças espirituais, todas tomadas por um Poder forte, os seus cristais também brilhavam intensamente. Alguns estavam tão tomados pelo mover que até mesmo seus olhos brilhavam e seus corpos estavam incendiados, eram verdadeiros altares de incenso incandescente. Foi maravilhoso!
“Alegrai-vos no Senhor e dai louvores à memória da Sua Santidade”. Com estes versos encerraram a cerimônia, depois de apresentarem as armas e ungirem-nas com azeite perfumado. Muitas pessoas do povo de Grammer trazia oferendas em cestos de vime com flores e frutos, alguns carnes assadas, outros traziam pergaminho, até relógio de sol recebemos entre outros artefatos, como bússolas automáticas (as não automáticas dependiam de uma bacia com água).
CAPÍTULO 15 – 1º de Shalom.
Em todo o reino as pessoas foram treinadas, sabendo cada qual sua posição. Os que ficariam para segurança do reino, os que sairiam para os barcos, todos esperando as ordens finais, que só foram repassadas no dia anterior à nossa partida e foram enviadas a cada um através de pergaminhos, que não poderiam ser lidos em voz alta, pois tínhamos receio de que Yanko pudesse ouvir de alguma forma e se preparar para frustrar nossos planos.
Viajamos em carruagens para a cidade de Kenty, pois esta ficava na margem oeste XXX beirando o Estuário da Paz, na porção mais próxima do Reino de Shawn.
Em 1º de Shalom saímos todos os cinquenta barcos, com a benção dos Príncipes Kalai e Kyom. Foram quatro dias de viagens. Fomos de vagar, prestando bastante atenção a tudo, sem muita velocidade e em boa navegabilidade. Nossa alimentação era a base de carnes defumadas, algas, queijos e sucos amargosos. No final do quarto dia vimos a cortina de fumaça que circundava o continente. Esperamos dois dias e adentramos.
A fumaça era asfixiante, podre, fedorenta a beça, com cheiro de carniça, muitos de nós vomitávamos. Nada parava em nossos estômagos e quando não tínhamos mais o que vomitar ainda assim continuávamos com ânsia como quem vai vomitar, e a barriga dói de contrações porém nada sai. Foram dias muito difíceis.
As águas eram marrons, infestadas de peixes mortos, boiando, de vez em quando enormes bolhas subiam da água, expelindo um gás que pegava fogo ao encontrar a superfície. Tenebroso.
As vezes conseguíamos aliviar com nossos poderes deixar o ar mais puro enquanto os barcos avançavam lentamente. Um ou outro barco foi atacado por monstros marinhos gigantes como baleias mas eram combatidos com energia e flechas mortais.
Foi terrível ver também corpos boiando, pessoas mortas. Lutamos contra tempestades de raios e ondas gigantes. Tivemos algumas perdas de barcos e alguns homens morreram afogados. Um dos sacerdotes teve a ideia de lançarmos ofertas pacíficas aos mares e isso em muito nos ajudou.
Corvos e morcegos eram combatidos energeticamente por garças e águias energéticas que saíram de nossos cristais, tomavam forma e nos escoltavam. Songhü me disse que nunca tinha visto formas como aquelas.
No oitavo dia, avistamos as grandes Montanhas Centrais, rocha escalvada e alta, e muitos bancos de corais protegendo a costa de forma que tivermos que contornar as rochas para nos aproximarmos, pois não estávamos conseguindo manipular as águas do mar para que nos transportassem por cima e nos levassem até a terra firme.
Alguns barcos foram atingidos e destruídos por colunas de pedra que surgiam com muita força e velocidade, muito possivelmente manipulados por Yanko.
Continuamos contornando pelo sul passando pelos mesmos tipos de revés. Tempestades, raios, ondas gigantes, ataque de animais, colunas de rochas emergentes e perdemos até então quatorze embarcações, meio que superlotando as restantes. Perdemos muito suprimento de água e alimentos. Nossos homens passaram a sofrer de diarreia e nosso estoque de água doce começou a acabar rapidamente, pois para evitar a desidratação dos nossos tripulantes tivemos de dobrar a quantidade de água consumida e nossos alimentos eram todos secos, com pouca taxa de líquido.
Certo e constante pavor nos assombrava, figuras da morte, assombrações, fantasmas andando sobre as águas eram frequentemente vistos, vozes, crianças chorando, pessoas gritando de dores, bolas de fogo que surgiam das águas.
No décimo dia chegamos à praia de Richies. Quando descemos do barco fomos massivamente atacados por enguias elétricas que causaram muitas queimaduras e prejuízos aos nossos soldados que desceram nos primeiros barcos. Tivemos que reembarcar e levar os barcos até a ponta das areias somente lá foi que conseguimos formar ondas para nos deixar a todos nós em terra firme. Por causa dos reveses nas águas decidimos que todo o grupo se manteria junto e os barcos restantes foram todos arpoados em terra firme.
Compreendemos que lá o mal poderia vir por todos os lados e aprendemos esta nova forma de batalha espiritual: através de animais energéticos.
Conseguimos formar vários leões que nos serviram de guarda, especialmente contra cães selvagens tão ou mais covardes quanto as hienas africanas. Águias de fogo faziam nossa escolta nos céus.
O solo era lamacento, difícil de andar. Muitos de nós estávamos fracos por causa da desidratação. Foi difícil prosseguir e era muito difícil manipular os elementos da forma correta. Alguns servidores tiveram seus pés petrificados quando tentamos formar um pavimento sólido rochoso para andarmos. Mas conseguimos lutar com bastante êxito contra ventanias, trombas d´agua e chuvas ácidas.
Quando a terra se tornou firmes vimos muitas luzes vindos de uma cidade mais acima. Estávamos nos aproximando da capital Lieches. Chegamos então na parte mais dramática da incursão. Os gritos e vozes de pedido desesperados por ajuda se tornaram maiores e de repente uma multidão de pessoas semimortas, como os zumbis dos filmes se aproximou de nós. Puxamos as espadas e íamos começar a disparar flechas, quando um servidor grito:
- Não atirem! Não atirem! São seres humanos. São nossos irmãos.
Então percebemos que aqueles zumbis eram, na verdade, pessoas doentes, magras, esfomeadas, fracas, sem capacidade de erguer nem sequer um saco de dez kilos, gritando: Socorro, Arde! Está doendo! Estamos com fome, estamos com Sede!
Montamos então acampamento e formamos vários leitos no chão. Montamos barracas, separamos equipamentos, e ocupamos os servidores, sacerdotes e soldados para ajudar aquelas pessoas. Estamos atentos, receamos até que fossem inimigos disfarçados, mas não. Não esboçaram nenhuma reação contrária. Muitos estavam extremamente magros, outros muitos também estavam nus, outros ainda sem pés, sem mãos, sem olhos, amputados, descabelados, sujos, fedidos.
Era de partir o coração. Crianças, jovens adultos e idosos daquela forma.
Não estávamos conseguindo tratar água então tivemos que voltar para buscar os tonéis de água restante nos barcos. Não seria possível levar esse batalhão de pessoas para Grammer para serem tratadas lá. Mas conseguimos dessedentar a muitos, alimentá-los também, cobrir os que estavam sem roupa e dar-lhes um mínimo de alívio sobre seu sofrimento.
Shawn se tornou um império das trevas e Yanko o Príncice das postestades daqueles ares. As florestas estavam queimadas a fogo, os rios foram contaminados, as hortas destruídas, pântanos e charcos estavam nos lugares das antigas planícies. O gado morreu ou atolada ou de fome ou de sede, a terra tornou-se seca e sem vida, todas as plantas amareladas pela falta de sol e água, o ambiente era infestado de serpentes, moscas e escorpiões tamanho desequilíbrio ambiental que assolou aquele continente.
Separamos provisões para um grupo menor ainda de soldados, servidores e sacerdotes e avançamos com a intenção de atravessarmos a cidade de Lieches. Com o tempo entendemos algumas alterações nas nossas formas de oficiar o sacerdócio para conseguir manipular os elementos corretamente, então conseguimos ter bons resultados manipulando o ar e depois as águas. Então Yanko tentou nos afetar de outra forma: através de raízes que brotavam do solo e prendiam nossas pernas, ou através de chuvas de granizo, enviando serpentes malditas que foram perseguidas pelas nossas águias energéticas. O bagulho foi doido! Quando entrávamos em uma estrada, tínhamos a sensação de que estávamos andando em círculos. Então construímos uma espécie de balão gigante e o fizemos flutuar com o poder do fogo e do ar combinados. E assim pudemos ver, ao longe, o antigo Castelo do rei Kligüer onde possivelmente Dammarka estava com seu filho Shanw e também com Yanko.
Cercamos o castelo por dois dias montando um grande acampamento ao seu redor e então gritamos várias vezes, mas sem resposta:
- Yanko você está cercado! Entregue-se!
CAPÍTULO 16 – 14 de Shalom
No terceiro dia os portões se abriram. Uma mulher de estatura média, até meio gordinha em relação aos magérrimos “zumbis”, cabelos loiros e crespos, olhos escuros como o breu apareceu e perguntou:
- O que vocês querem? Vieram importunar meus dias de sofrimento e solidão?
- Dammarka, é você? – perguntou Songhü.
- Songhü sua voz continua a mesma desde que me condenaste.
- Os céus te condenaram não nós. Onde está Yanko? Viemos prendê-lo!
- Prender Yanko? Hahaha – gargalhou bem alto. Como fará isto, se ele é um Yahleroi? O único que manipula o fogo em todo reino de Shawn? Só me restou ele. Ele cuida de mim. Há quase uma lua que não o vejo, não sei de seu paradeiro. Procurem-no pelo reino!
- Não! Queremos que ele se entregue!
- Pra quê? Para condená-lo como fizeram comigo? Qual a pior condenação que a minha e a dele? Eu não tenho marido, meu filho está morto e ele não tem mãe! Só temos um ao outro.
- Yanko está interferindo em Grammer, tirando nossa paz!
- Sua paz? E nós, como ficamos? Voces mesmo viram: não há água limpa, sem solos férteis, meu castelo está cheio de aranhas, traças e escorpiões. Minha condenação é tão grande que nenhum deles tira minha vida nem veneno algum faz efeito em mim. Para nós não há consolo. Há muito que na terra da aflição morreu esperança! Mas o que é isto que eu vejo vestido de luz? Vocês trouxeram um anjo? Hahahah – gragalhou novamente – Que anjo lindo e maravilhoso é este?
Ao me ver, Dammarka, deixou que uma lágrima escorresse do seu olho. Completou:
- Faz anos que eu não vejo um anjo. Vieste atormentar-me ou trazer-me salvação?
- Dammarka – interpelou Songhü – tão somente arrependa-se, peça perdão a todo mal que você cometeu! – E trovões foram ouvidos nos céus – Veja a confirmação dos trovões. Voce pecou e recebeu a condenação do seu erro. Mas esta maldição precisa acabar. Todos já viram o que o mal é capaz de fazer e como a cobiça e o desatino podem perverter uma pessoa. Dammarka, arrepende-te!
- AAAAAAH! – Gritou em alta voz – AAAHH! – lamentou – Quem me dera houvesse salvação, para mim não há salvação! Yahleroi! Yahleroi!!!
De repente uma coluna de fogo desceu dos céus sóbrios e nublados e uma grande bola negra apareceu. Ouvimos uma voz grave e metálica dizer:
- Outro Yahleroi? É você mesmo, que está aqui, invadindo meu reino e ameaçando meu reinado? Eu não vou me entregar sem antes lutar!
E a bola negra veio voando em minha direção e ei voei contra ela, disparando um jato de fogo e luz. Aquela bola se movia muito no rápido no céu e enquanto eu me esquivava de estrelas negras que ela atirava, eu procurava Yanko com minha visão intuitiva, mas não o encontrava.
Fui atacado por aquela bola de diversas formas. Ela destruiu o acampamento, muitos servidores foram aprisionados em raízes e alguns morreram estrangulados. Ela disparava uma mistura de fogo e enxofre, estrume, esgoto, raios grossos e poderosos que estampavam nos ares ruídos ensurdecedores. Estava muito difícil lutar contra esta esfera de trevas o que seria de mim quando encontrasse Yanko.
Fugi para ganhar tempo, mas fui pego por uma rede energética nos ares, e caí no chão em alta velocidade. Me feri bastante, mas os poderes elementais em mim combinados ativaram um tipo de cura milagrosa então as dores rapidamente passaram.
Corri pelos bosques sombrios, saltando de árvore em árvore, disparando contra a esfera negra, jatos de água que acertaram-na e a fizeram cair ao chão. Consegui tecer uma rede com a energia do fogo, mas quando lancei sobre a esfera a rede se desfez instantaneamente. Tentei outras artimanhas para destruir a esfera, mas tudo que eu lançava contra ela era ou por ela esquivado ou por ela distorcido de forma que não a atingia.
Voltei em direção ao castelo, voando, e vi Songhü e outros servidores e mestres manietando Damarka, numa tentativa de força com que Yanko se entregasse e aparecesse. Juntei-me ao grupo e fiquei voando acima dele, virando-me rapidamente para todos os lados, pois não sabia por onde Yanko poderia me atacar, temi bastante.
Songhü convenceu Dammarka a confessar seus pecados e pedir perdão perante todos. Ela estava arrependida, pois sofrera todos esses anos calada, amargurada, sem esperança, esta seria a sua primeira oportunidade de redenção.
Quando Yanko percebeu que Dammarka ia se entregar, decidiu matá-la. Entesou o arco e fez uma flecha de puras trevas. Foi quando a esfera se abriu, desnudando-se em transparente e o meu arqui-inimigo despontou de dentro da esfera, de frente para mim, com a mira apontada nela.
- Príncipe Kyom? É o Príncipe Kyom, gente! – gritei para os servidores, que responderam:
- Olhem, o Príncipe Kyom é o senhor das trevas.
E Yanko disparou a flecha. Instintivamente eu me teletransportei, tudo ficou em câmera lenta Flashes de luzes passaram ao meu redor na velocidade da luz, com o esplendor de raios rasgando os céus, porém silenciosos.
Vi minha família, vi a minha casa, vi meus pais, vi meus irmãos, vi minha fraqueza humana, vi as humilhações que eu passava na escola, vi a ilha de Pituã, vi Wolnyar, vi as primeiras cenas de quando lá cheguei, vi o presente, vi o passado e vi o futuro, tudo ao mesmo tempo neste mesmo instante em que minhas mãos já não encontram mais forças para escrever. Vi Songhü, vi a Princesa Kalai, e vi o Príncipe Kyom, este revelando ser, na verdade, meu inimigo a quem eu fui incumbido de derrotar. Vi Dammarka, sua cara de espanto, vi o temor, o pavor em seu rosto, via a morte dela, que com a minha própria vida evitei.
Encontrei-me no exato instante na distância mínima entre a flecha e Dammarka, recebendo eu o disparo fatal que de tão forte e negativo rompeu minha armadura de couro de crocodilo, perfurou meu pulmão e eu caí como morto. Senti todas as dores do mundo quando ela fincou em mim bem perto do coração. Vi o ódio, via a morte, vi a dor de todos os que estavam sofrendo desde o momento em que Unnikav foi dividida e as trevas tomaram conta do Reino de Shawn. Vi a natureza se degradando, o sol escurecendo, a vegetação secando, o gado morrendo.
E trovões e relâmpagos abalaram os céus. Vi minha vista perdendo a cor, vi tudo ficar negro e eu fiquei inconsciente, como morto, ao chão. Ouvi uma gargalhada infernal:
- HAHAHAHAHAH! Este é o vosso Yahleroi? Que está morto? HAHAHAHAH!
- Príncipe Kyom, como você pôde? – perguntou Songhü.
- Kyom? Quem é Kyom? Eu não conheço nenhum Kyom. Há porventura algum pergaminho com meu rosto?
- Sim, há! Respondeu Songhü. E com a energia do faz fez com que o rosto do Príncipe Kyom se projetasse nos ares, como um holograma em tons pasteis, a vista de todos. E completou: Príncipe Kyom, filho do Rei Grammer, nomeado Príncipe e Governador de Keotai, aos treze anos de idade.
- AAAAAHHH – gritou lastimando, Dammarka. E continuou: - Kyoooooooom, é meu filho! – e chorou amargamento, perdendo em si as forças e prostrando-se ao chão de joelhos. Observou o holograma e viu como o Príncipe tinha puxado seus olhos, sobrancelhas e boca. – Kyoooom, Kyom, Kyom, é meu filho. E você, Yanko, é irmão gêmeo dele!
- Oooooh! – todos fizeram um ar e caras de espanto, Songhü então, nem se fala.
- Voce, Yanko, é meu filho! – e chorou abraçando Gabriel. E Disse: Yahleroi, me perdoa!
- Não! – gritou Yanko – Não pode ser! – disse, aproximando-se um pouco de Dammarka que abraçava meu corpo – Sua Vadia! Você me negou esse tempo todo!
E lançou outra flecha negra contra ela, mas Songhü e os outros alto-sacerdotes conseguiram bloqueá-la. Assim também Yanko tentou enviar outras formas energéticas para tentar tirar a vida de Dammarka, que na verdade era sua mãe, mas sem sucesso também.
- Não Yanko, não faça isto! Eu nem te vi crescer, nunca tinha visto a tua face – afirmou Dammarka – Você é o meu filho, a quem dei o nome de Shawn!
- E o que aconteceu para eu crescer sozinho, alimentado pelos demônios no alto das Montanhas Centrais na cidade de Ialketal?
- Ialketal era o único templo do fogo, onde quando você ainda era bebê, eu te abandonei, me perdoa!
- Sua vadia! – e tornou a disparar contra ela, mas o grupo de sacerdotes estava forte, mesmo com Gabriel inconsciente, nenhuma flecha, chicote, golpe ou lancores alcançaram-na. Ficaram parados no ar. Dammarka, arrependida, abraçava meu corpo inerte e molenga, chorava copiosamente.
De olhos fechados, temendo a morte, me abraçou forte e disse:
- Estou tão arrependida! Me perdoa, Deus, pelo que eu fiz, eu matei meu marido e abandonei meus filhos, por ciúmes! Me perdoa Yahleroi, me perdoooooaaaaa! – e chorava bastante, ao ponto de soluçar.
Daí que o chão começou a tremer. Os trovões voltaram a rugir e começou a chover uma chuva torrencial e intensa, de gotas mui grossas. Esta chuva lavou as paredes do castelo, jogando aquelas trevas por terra abaixo. Yanko voltou a se proteger em sua esfera negra e a revestiu de rochas.
Os céus nebulosos se abriram e a luz do sol entrou, indo de encontro ao meu corpo. As gotas de chuva, iluminadas pelos raios solares passaram a brilhar como pequenas lâmpadas de led e onde caíam na grama a fazia reverdejar instantaneamente.
Muitos outros servidores foram chegando, não entendo o que estava acontecendo, mas podiam perceber que havia algo errado pois mesmo a distância minha roupa laranja e roxa se destacava no meio da vasto campo aberto a frente do castelo, mas ninguém ousou me tirar do colo de Dammarka. Suas lágrimas molharam meu rosto.
Formou-se então um redemoinho de gotas brilhantes ao meu redor e estas foram se tornando em gotas de luz, adentrando em meu corpo e também na flecha. Meu corpo levitou a cerca de um metro de altura, deitado, enquanto muitas outras milhares de gotas vinham ao meu encontro. A flecha foi transmutada em uma espada brilhante e meu corpo em um resplandecente ser de luz, empunhando a espada com a lâmina para baixo e a mesma se tornou um cetro em minhas mãos.
Meus olhos brilharam, minhas mãos também. Meus pés reluziram como bronze polido de duas poderosas asas se abriram em minhas costas. Com o estender das minhas mão fiz tudo ao meu redor reverdecer. As gramas voltaram a viver, as árvores mortas das florestas voltaram rapidamente a ter folhas e em seguida flores e também frutos. Restaurei o castelo ao seu estado original instantaneamente, liberei curas milagrosas para os servidores feridos, fiz chover abundantemente.
Yanko tentou me atacar de todas as formas, mas eu fui tornado em um ser tão poderoso, que com um simples gesto de dedos fiz todos seus ataques serem anulados nos ares. Com o movimento das mãos de como quem abre um abacate em duas partes, assim fendi a crosta da esfera em que Yanko se escondia.
Me aproximei voando da esfera e posicionei minha mão esquerda atrás da minha orelha e estendi minha mão direita em direção a esfera que agora estava fendida em duas partes. Raios luminosos maravilhosos com todas as cores que você imaginar saíram de mim com a potência de um laser e a esfera de desfez sob a forma de diversos montros, demônios, serpentes, escorpiões, vermes, larvas, corvos e morcegos que batiam em retirada por um vórtex que se abriu nos céus atrás de Yanko, que ia para fora do planeta para trás da segunda lua, para uma dimensão do espaço-tempo qual eu nem podia entender, retornaram para seus lagos de fogo e enxofre onde gritam atormentados dizendo:
- Arde, consome, o fogo queima sem parar!
Aproximei-me de Yanko e o tomei pela mão direita através de laços de amor. Neste instante ele entrou em um tipo de convulsão, tremendo seu corpo freneticamente nos ares, vomitando bastante um orgone negro que era sugado de igual modo para o vórtex, junto com fezes e urina, pois tudo isso lhe sucedeu instantaneamente. Intercalei luzes de cura e de gloria, lançando-as contra ele de forma a deixa-lo limpo e purificado. E as energias dos quatro elementos fizeram o serviço restante de restauração dele.
Ainda o segurando nos ares com a mão direita, estendi a mão esquerda para Dammarka e lha restituí a saúde. Ela, chorando mais ainda, também vomitou algo estranho, fétido, porém com cor de vermelho sangue. A limpei, a restaurei, a perdoei, lavei energeticamente seus cabelos que voltaram a um tom vermelho acastanhado com um cacheado muito lindo e empoderador. Com breves gestos removi todos seus anéis, pulseiras, cordões e apetrechos de magia negra que utilizava e materializei tudo novo, de ouro e pedras preciosas, para lha ornamentar.
Trouxe Yanko, ou melhor, Shawn, para o meu colo, como um pai pega uma criança deitada em seus braços. Ele estava magérrimo, dedos esguios, olhos esbugalhados, fundos e com um roxo tão profundo quanto seus lábios inchados. Então eu beijei suas bochechas, beijei sua testa e por fim o beijei nos lábios, soprando nele a Chama Divina e o Fôlego da Vida. Seu semblante mudou consideravelmente, de um pálido esverdeado para um tom bronzeado, seus cabelos também se desembaraçaram e viraram vários dreadlocks trançados, em um processo que durou cerca de meia hora. O entreguei a sua mãe, que o abraçou do mesmo modo como havia feito comigo. Então uma voz disse através de mim:
- Não se chamará mais Yanko, nem tampouco Shawn. Mas se Yanko significa maldito, agora se chamará Elyan, ou seja: Filho da Luz.
Então me levantei aos altos céus, e girando com os braços estendidos para baixo, restaurei muitas coisas instantaneamente.
Enquanto mãe e filho se abraçavam, a luz do sol irrompia mais ainda dentro de mim. Fui até o acampamento do hospital de campanha criado para os habitantes daquele continente e curei a todos instantaneamente. Revigorei de igual modo todas as plantas até eu chegar no tal acampamento, ressuscitei todos os animais mortos, todos os ossos espalhados voltaram a ter vida, carne, órgãos, pele e sistema nervoso central, e ainda o fôlego da vida, que permite com que todas as células orgânicas funcionem devidamente e sem o qual nenhuma célula orgânica poderá viver muito tempo em condições artificiais.
Ativei os servidores ao máximo de suas capacidades, todos os cristais brilhavam intensamente e flutuavam presos em seus pescoços, direcionados a mim, como se quisessem vir ao meu encontro. Então eu vi que vários servidores foram incendiados com a chama divina, tenho a forte impressão que eu multipliquei meu dom do fogo com vários deles, senão todos.
Jatos de todas as cores irrompiam de todos os cristais dos servidores e eu pude ver de cima vários arco-íris em todas as dimensões do espaço-tempo. Sentia em mim todas as árvores, todos os rios, todos os estuários, todos os peixes, animais rastejantes, quadrúpedes e aves dos céus. Tudo foi quase que instantaneamente revigorado, mas eu lembro que toda a energia necessária para tal fluiu por mim, eu girava no ar de braços abertos, empunhando o cetro com a mão direita e muitos jatos de luz jorravam de mim para todos os lados. Foi muito forte e preciso. Não houve sequer um animal morto que não ressuscitasse, nem sequer um pedaço de osso que não voltasse a ter vida. Todos os rios foram despoluídos e descontaminados, em um trabalho de cura energética que durou cerca de 3 horas, enquanto eu dançava, bailava e vários dos servidores acompanhavam minha dança e multipl
icavam meu dom.
Anjos celestiais cantavam canções celestiais, afirmando:
- Aleluia! Pois já o Todo Poderoso Reina!
CAPÍTULO 17 – Elemento Fogo
O poder do fogo é ascendente. É espiritual, é a chama divina. Todas as nossas aspirações de sublimidade espiritual, de canalização da Glória de Deus desperta este dom.
Em nossos corpos está nas nossas células, nos citocromos, nos ribossomos, mitocôndrias, ciclo de Krebs e DNA. Todos os fluxos de elétrons, nossos atos de adoração, clamor e sacrifício.
Todo jejum, toda consagração desperta o poder do Fogo de Deus em nós. Todo altar de adoração quando é erigido em santidade na intenção de mover o coração de Deus desperta o dom do fogo.
Ele está em nossas mãos, na palma das mãos, está em todo nosso corpo, mas está inerte, em estado letárgico, esperando que nos movamos com o coração contrito para gerar em nós a doçura, a esperança, a força e a coragem necessárias para sermos cheios da Presença de Deus e também sermos canais do Teu favor em favor do próximo, em especial do fraco e oprimido. Nada disso pode ser feito sem ser motivado pela caridade que é o amor em ação.
O propósito que Deus tinha determinado para mim cumpriu-se ali, meu corpo estava todo incendiado, cada vez mais luz fluiu de dentro de mim. Eu vi todo o cosmos, vi todo o universo à minha frente. Estava voando bem alto, perto das nuvens e muita Gloria fluía por mim.
Minha espada/cetro se materializou, sua forma energética agora passou a ser matéria, toda de ouro com a ponta do cetro uma esfera transparente com quatro estrelas dentro.
Soltei-a e parti para além das nuvens. Senti quando a espada encravou-se na terra. Vi Songhü e outros servidores correndo e se prostrando junto a ela. Vi os demais servidores, vi os barcos, vi o novo continente de Elyan e vi também o continente de Grammer. Ouvi uma forte trombeta, mais grave do que todas as anteriores, de forma que eu jamais ouvira e então sumi.
CAPÍTULO 18 – De volta ao Planeta Terra.
Acordei na Praia de Itapoã, cuspindo água, tossindo e sendo reanimado. Haviam salva-vidas sobre mim e muitas pessoas em círculo me observavam, eu tinha me afogado e quase morri. Sorte que pescadores viram quando a onda me pegou e eles mesmos me acudiram, levando-me para a praia e me entregando aos profissionais.
Fui recobrando minha consciência, fui lembrando de tudo que aconteceu em Wolnyar. Apalpei meu corpo por inteiro, sentei-me na areia e todos aplaudiram e comemoraram.
Tendo recobrado minha consciência, me pus a chorar bastante. Estava cumprido. Minha missão estava cumprida e todo o sofrimento do bullying que eu sofri na escola e todas as perseguições na rua foram para me tornar uma pessoa melhor, que ama o próximo e abomina o sofrimento alheio. Todos meus sonhos se concretizaram.
- Fique calmo, você está bem, você está vivo! – alguém tentou me consolar.
Mas eu não chorava por ter sobrevivido e sim por ter ido em Wolnyar. Poderia ter sido uma viagem da minha cabeça, mas eu pergunto: onde entram aí os meus sonhos de infância?
Escrito em Guarapari,
09/08/2018.
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